O Capote – Nikolai Gógol

Como vocês mesmos podem perceber, há muito tempo não escrevo aqui para o blog. Desde outubro, precisamente. Para ser sincera andava sem ânimo nenhum para escrever textos mais longos, que ultrapassassem os caracteres do instagram. Textos que precisassem que eu sentasse na minha cadeira giratória, ligasse o computador e escrevesse durante um tempo maior. Mas, como esperado, voltar a escrever seria uma necessidade mais cedo ou mais tarde. Então, aqui estou.

E eu não poderia voltar de modo diferente: claro que com uma resenha de um livro da literatura russa. Como muitos sabem, a minha predileta.

Hoje trago para vocês a novela O Capote, de Nikolai Gógol, publicada em 1842, meu primeiro contato com o escritor. Escolhi logo esta e logo neste tempo porque está em cartaz aqui no Rio uma adaptação desta novela, então juntei o útil ao agradável; não perdi a oportunidade.
Sem mais delongas, vamos ao enredo de O Capote.

À primeira vista pode parecer-nos “bobo” e até “insignificante”, mas não se deixe enganar: é aí que está a beleza da coisa. Como, após ler a introdução de minha edição não achei melhores palavras para resumir esta obra, reproduzo o trecho abaixo:

Era a história de um pobre funcionário público que, a grandes custos, consegue comprar um novo capote [casaco] e é roubado no mesmo dia em que o inaugura.  Segue-se, então, uma via-crucis pela burocracia russa. A história é não só uma crítica à burocracia, mas um olhar atento e humano às pessoas marginalizadas pela sociedade, às quais ninguém dá atenção, mas que têm cada uma, uma história para contar.

Como se vê, suas histórias eram simples, bobas até, como contos infantis. Nada de pretensões filosóficas ou pedantismo. […] Suas histórias misturavam humor e tragédia naquilo que os críticos chamaram de risos entre lágrimas. Personagens como o funcionário público de O Capote são ridicularizados, mas ao mesmo tempo, redimidos por sua humanidade.

Como o autor da introdução disse anteriormente: “Outra característica que marcou os colegas foi o dom de procurar o humor em plena desgraça”.

Nesta novela, Gógol não se prende a nomes e identificações específicas, pois fica claro que são situações que representam o funcionarismo público e a burocracia como um todo. Além do mais, apontar nomes não é o essencial, visto que são irrelevantes no todo. Com isso, ele mantém esses pequenos mistérios durante toda a narrativa. Mas apontar seu cargo enquanto funcionário público, antes de qualquer coisa, é importantíssimo.

A carga que as hierarquias trazem junto delas, além como desse poder oriundo, é a chave para entender o que Gógol poderia querer nos dizer. A frieza e a objetividade do cargo de funcionário público é sempre jogada ao leitor.

O capote na história significa muitas coisas, em um teor altamente metafórico, assim como o frio que o chama. A graça da história é você perceber essas nuances, em como o objeto pode representar mais do que um simples casaco. Como o capote gasto, tão necessário.

Além disso, o recurso que Gógol usou de a todo momento se reportar ao leitor e explicar coisas pouco faladas é interessante.

O texto é recheado de ironia e sarcasmo, o que remete ao que foi dito na introdução, o fato de acharmos graça de situações trágicas, característica que traz uma leveza e fluidez ao texto, mas de maneira nenhuma diminuindo ou prejudicando as questões levantadas em cada uma das sutilezas de Gógol.

Chegando em casa, sentava-se à mesa e comia a sopa de repolho e beterraba e mais as moscas ou que quer que o Senhor houvesse por bem mandar.

[…] A porta estava aberta, pois a esposa estava fritando peixe e se levantava tamanha fumaceira na cozinha que era impossível ver até mesmo as baratas.

Acho que vou parar por aqui, contar mais dessa história pode prejudicar a experiência de leitura, e até porque trata-se de uma novela, portanto, um texto curto. Mas preciso dizer que tive, durante a leitura, insights de intertextualidade, como com Vidas Secas, de Graciliano Ramos, e A Morte de Ivan Ilitch, de Tolstói. Claro que ficarão no ar, e cabe a você ler para enxergá-los como eu, talvez, hehe. No mais, gostei bastante, e acho que foi uma boa iniciar por este. Dostoiévski trouxe uma máxima interessantíssima e que ficarei atenta a partir de agora, com o tempo quem sabe eu gostando mais desta novela e enriquecendo-a: “Descendemos todos de O Capote“. No mínimo curioso, não?

Acho que quatro estrelas pode ser uma boa avaliação para ele.

Muitas vezes, no corredor da vida, o jovem estremecia ao pensar em quanta desumanidade há no homem, mesmo naquelas pessoas que a sociedade considera honradas e nobres.

 

Leituras de outubro/2015

Hoje vamos tratar aqui no blog das leituras que fiz em outubro. Como ainda estamos no dia 31, pode ser que eu avance ou mesmo termine alguma leitura até o final do dia, mas aí qualquer coisa aviso vocês 😉
Mantendo a mesma média dos outros meses, infelizmente, só terminei três livros em outubro, mas comecei inúmeros, que farei de tudo para terminar neste próximo mês de novembro (oremos!); os mil clubes de leituras, projetos/desafios (que não consigo deixar de participar), as matérias na faculdade e a hiperatividade não ajudam, mas aos poucos vamos administrando isso.

Também teve a questão de que há dois meses não atualizo o blog. Peço perdão pelo sumiço por aqui, mas houve diversos motivos, até de não estar motivada a escrever mesmo. Mas lembrando que no Instagram as atualizações são quase que diárias, então sempre mantenho a comunicação com todos vocês 🙂 Mas vamos, enfim, aos livros!

Comecei outubro lendo meu primeiro livro de H. P. Lovecraft, um autor norte-americano que ficou mais conhecido por ter criado o gênero do terror cósmico, e que geralmente escreve dentro deste gênero. Como tinha dito lá no instagram, me propus a participar também do #MêsdoHorror, um desafio criado por Tatiana Feltrin para ler livros de terror, horror, mistério e morte durante o mês de outubro, o mês do Halloween. Havia separado alguns títulos para leitura, e este de Lovecraft, O Horror em Red Hook, fora um deles.

Já havia lido um conto do autor chamado “Dagon”, que me deixou no mínimo curiosa, mas nada me prepararia pro que encontrei nesta obra. De início só sentia estranheza pelos contos, e a palavra que não parava de pairar em minha mente era “bizarro”, como brinquei no post do instagram. A compreensão foi prejudicada também, mas não por culpa do autor, me parece, mas pela estranheza com o texto novo mesmo. Até o segundo conto (de três, que compõem o livro) essa incompreensão atrelada com a estranheza me acompanhava, em certo ponto, mas no segundo a situação melhorou bastante: já compreendi melhor e gostei mais do texto. Até que, enfim, cheguei ao terceiro e último conto, em que tudo se concretizou e se finalizou de uma forma espetacular. Um conto que nunca mais esquecerei o nome devido a esse impacto: A Tumba. É claro que a estranheza e a bizarrice são sentimentos que parecem permear os textos de Lovecraft, mas para mim pareceu algo proposital e intencional mesmo. O que não tira seu mérito, muito pelo contrário, o torna fascinante já à primeira experiência. Saí da leitura recomendando bastante o livro, até porque essa experiência foi super válida, especialmente num mês especial como este. Mas tinha a noção de que uma releitura era necessária, para melhor absorção e prazer na leitura dos contos. E só posso dizer que: leiam este último conto imediatamente, mesmo que não tenham esse livro em mãos. É absolutamente fantástico, dos melhores contos que já li.

A segunda leitura do mês foi minha primeira tragédia ou peça em geral grega (e clássica), e Sófocles, o autor de Édipo Rei, foi meu segundo dramaturgo, desde Shakespeare. Pensava encontrar um texto muito obscuro, intrincado, de difícil compreensão e absorção/inserção dentro da história. Mas não foi o que encontrei nesta peça. É claro que recorri ao dicionário pelo celular a todo momento, até porque sou muito leiga em mitologia, um assunto que me interesso, mas que ainda não parei para ler a fundo.  A cada nome que eu não conhecia, procurei pela internet e tive respaldo, o que me ajudou bastante na leitura. Mas talvez você consiga ler sem essas consultas, creio bastante que sim, foi apenas uma escolha minha, que não gosto de deixar coisas tão simples passarem. Além das palavras que não conhecia, claro, o que nos fortalece o vocabulário. Quanto à história em si, acredito que todos a conhecem, não é? A que deu origem ao complexo de Édipo, estudado pela psicanálise; em Édipo, o mesmo descobre-se esposo de sua própria mãe, além de ter assassinado seu próprio pai. Gostei muito do enredo, foi bastante bem executado para mim, e uma ótima tragédia. Ao final fiquei um pouco confusa com a mensagem, o que me permitiu várias reflexões sobre, e o desfecho em si foi sensacional para mim (não sei se contar o final de Édipo chega a ser um spoiler, mas enfim, hahaha).

E, por último, li O Vilarejo, lançamento deste ano de Raphael Montes, escritor carioca. Como Vilto Reis disse em sua resenha, também lembrei de Lovecraft ao ler os contos, inspiração que também é corroborada pelo autor, assim como de Edgar Allan Poe, que ainda li bem pouco. Em O Vilarejo, encontramos o próprio autor como personagem da história, se auto-intitulando o tradutor destes sete contos encontrados neste livro, que estavam escritos em um idioma muito antigo e já extinto, o cimério. Além disso, no prefácio tomamos conhecimento da descoberta, por um antigo padre e demonologista, de que existem sete reis do inferno, que representam os sete pecados capitais, sendo eles: Asmodeus, com a luxúria; Belzebu, gula; Mammon, ganância; Belphegor, preguiça; Satan, ira; Leviathan, inveja; e Lúcifer, soberba. Com estes sete demônios, temos os setes pecados capitais representados nos sete contos, cada um focado em um pecado.

Sobre o livro gostei bastante. Também tive bastante estranheza nos primeiros contos, que beiram o horror puro e até o gore. O que pra mim foi uma surpresa, nunca havia lido algo assim, acho, mas que gostei. Com certeza um trabalho bem melhor que seu anterior, Dias Perfeitos: algo mais conciso e direto, mas maduro. O final foi bem bacana também, desfecho bem pensado. Uma ótima pedida para quem gosta do gênero, ou que quer começá-lo a lê-lo. Ou mesmo um livro bacana para passar o tempo mesmo. Noventa e seis páginas que passam bem rápido.

Para maiores detalhes dos três livros, só conferirem as postagens referentes a eles no instagram. 😉

Cristiane Gomes.

Lendo a Ditadura: Antes do Golpe – Ferreira Gullar

Todos nós sabemos que estamos em um período de grande instabilidade política, dentro de uma crise político-econômica, em que novos pedidos de impeachment, desta vez para a presidenta atual, Dilma Rousseff, estão sendo clamados por boa parte da população. Nosso último vislumbre disso foi no dia 16 de agosto, na manifestação contra a presidenta, só que os clamores não pararam por aí: vimos, infelizmente, muitos cartazes que pediam a volta da ditadura militar, que durou 21 anos em nosso país, durante os anos de 1964 a 1985, inclusive pedidos em outras línguas, o que nos remete a situações passadas.

Dado isto, a Paula Dutra do blog Pipa não sabe voar, em parceria com outros blogueiros, booktubers e mesmo leitores, criaram o projeto e blog Lendo a Ditadura, da qual embarquei junto, em que leremos obras que retratam esse período em nosso país ou mesmo sobre o contexto que o proporcionou, além da utilização de outras mídias, como pinturas, músicas, filmes/documentários, entre outros. A minha primeira contribuição será com o breve, mas excelente e muito ambicioso, ensaio Antes do Golpe: Notas sobre o processo que culminou no golpe militar de 1964, do maranhense Ferreira Gullar.

Gullar começa seu ensaio já afirmando o que não nos é muito sabido pelo senso comum, e que eu mesma só descobri a sua profundidade e suas diversas nuances e influências já no curso de História, e que foi muito bem explorado e complementar para meu conhecimento pelo autor: de que o golpe começou muito antes de 31 de março de 1964, e que, além da inegável e importantíssima contribuição da conjuntura nacional desde Vargas, houve a influência de fora do país, essencialmente dos Estados Unidos.

Esse projeto de golpe, que se concretizou em 1964, já era arquitetado desde o governo getulista, em que o presidente foi deposto pelos militares em 1945, porém, em 1950, Vargas se candidata novamente e ganha, o que os deixa insatisfeitos e, junto com seu líder civil, o jornalista Carlos Lacerda, consideram uma afronta à democracia sua eleição. A partir disso, uma campanha é iniciada para inviabilizar seu governo. Um atentado contra Carlos Lacerda, atribuído à Vargas, deflagra uma crise militar, o que os militares insistem em que Vargas deveria deixar o governo.

Com exceção de Café Filho, os presidentes sucessores tinham como vice-presidente João Goulart, que era herdeiro político de Vargas, e que presumia o retorno do getulismo ao poder, consequentemente intensificando-se a campanha de Lacerda e dos militares. Quando foi a vez de Goulart estar no poder, com a renúncia de Jânio Quadros, claramente houve tentativas de impedir sua posse, o que não se concretizou, com o reconhecimento do Congresso como sucessor político de Jânio e com o apoio de Leonel Brizola, juntamente com o III Exército do Rio Grande do Sul, sua posse foi garantida.

Além de toda a conjuntura política nacional, internacionalmente ocorreram vários eventos que contribuíram, de certa forma, para esta conjuntura, tanto pré como pós golpe: a Revolução Cubana em 1959; a Guerra Fria, instaurada pós-Segunda Guerra Mundial; o nascimento da República Popular da China, por Mao Tsé-Tung.

É fato que, logo após o fim da Segunda Guerra, os norte-americanos se preocuparam com o crescente poder da União Soviética e seu trabalho de cooptação das lideranças sindicais e intelectuais em todo o mundo – e naturalmente nos países menos desenvolvidos, onde os problemas sociais eram mais agudos. Por isso mesmo, Washington tratou de ampliar sua influência sobre os militares desses países, sobretudo na América Latina, criando escolas de formação de oficiais no Panamá, Colômbia, Chile e Brasil, entre outros países. Sua atuação foi incrementada depois da Revolução Cubana, quando a Escola do Caribe passou a se chamar Escola das Américas, por onde passaram, entre 1961 e l977, mais de 33 mil militares. Essa escola ganhou o apelido de “escola dos golpes”, tal foi a sua influência sobre as forças armadas latino-americanas, que, com certa frequência, punham abaixo algum governo democraticamente eleito. No Brasil, foi criada a Escola Superior de Guerra, que fez a cabeça de centenas de oficiais, alguns dos quais participaram ativamente na conspiração que resultou no golpe de 1964.

Em seguida, Gullar retrata como foi o governo conturbado de Jango, com uma grande pressão interna e externa. Já perto do golpe, ‘”a Igreja Católica, que sentia internamente as consequências dessas mudanças, mobilizou seus seguidores para uma manifestação que se intitulou “Passeata com Deus pela Família” e que reuniu milhares de pessoas”‘. Lincoln Gordon, embaixador dos Estados Unidos, informou Washington do que ocorria no Brasil, e da possibilidade crescente de o governo brasileiro derivar para um regime comunista, então, pelo que parece, entrou em contato com chefes militares, que também conspiravam contra Jango, e os estimulou, garantindo que o novo presidente logo seria reconhecido por seu governo. Finalmente, Gullar nos apresenta os últimos passos, as últimas horas antes do golpe, onde se encontrava em cada acontecimento e seu envolvimento, como presidente do Centro Popular de Cultura da UNE.

Cristiane Gomes.

Orange is the New Black – Piper Kerman

A leitura deste livro não poderia ter sido em melhor momento: no final do mês passado, através da publicação de um livro chamado Presos que Menstruam, pela Editora Record, e através de diversas matérias em várias mídias, inclusive entrevistas com a autora do livro, a jornalista Nana Queiroz, pudemos saber mais sobre a realidade um tanto invisível para nós de fora, a realidade das mulheres brasileiras presas. Nestas matérias, presenciamos declarações, dados e constatações chocantes e terríveis, como detentas usando miolo de pão no lugar de absorventes íntimos, ou coisas piores, como veremos mais a frente. Como muitos já sabem, Orange is the new Black, da Editora Intrínseca, que também conta com uma aclamada série criada pelo Netflix, conta a história de Piper Kerman (Piper Chapman na série), uma loira de classe média que, após ter carregado uma mala cheia de dinheiro de tráfico de drogas há dez anos, para uma ex-namorada, é indiciada e condenada a treze meses em uma prisão federal de segurança mínima, tendo que conviver com diversos tipos de mulheres, de raças, condições sociais e econômicas diferentes de sua realidade.

Em um primeiro momento, pode parecer para alguns um plot simples ou bobo, que não chama a atenção de qualquer um, já esperando uma mulher mimada ou algo assim. Mas não se enganem. O que chama a atenção no livro (e que na série é um tanto diferente) é a dura realidade com que essas mulheres vivem, e que essa realidade atinge de formas muito diferentes cada tipo de mulher: como Piper nos conta em seu livro, que é de seu caso real, muitas mulheres nunca trabalharam em empregos formais na vida, apenas informais, e ficam se perguntando o que será de seu sustento no dia que saírem, já que não há recomendações ou incentivos para que ex-detentas sejam contratadas, muito pelo contrário; mulheres que tiveram seus filhos tomados de si e suas famílias fragmentadas, e que terão que reconciliá-las com a saída; mulheres com penas muito longas e que não enxergam mais vida fora, entre outras. Piper, ao longo de seu relato, percebe o quão privilegiada é, com um noivo a sua espera do lado de fora durante toda a pena, e que a visita semanalmente, assim como sua forte família, que continua a apoiá-la; um emprego seguro e garantido quando sair, oferecido por um amigo; e, claro, uma condição financeira e emocional seguras para a receberem. Realidade que não é de quase nenhuma detenta.

Mas também deve-se levar em conta que a realidade das prisões americanas, apesar de o país conter a maior população carcerária do mundo, cerca de 25%, não é a pior do mundo, como temos o nosso próprio exemplo, e a jornalista Nana Queiroz tenta mostrar em seu livro, e que achei interessante trazer pra cá e essa discussão, mesmo que a resenha não seja desse livro e mesmo que eu tenha lido, o que ainda não tive a oportunidade.

A luta diária dessas mulheres é por higiene e dignidade. Piper Chapman, protagonista da série Orange is the New Black, cuja terceira temporada acabou de estrear no Netflix, provavelmente não sobreviveria numa prisão brasileira. Se a loira ficou abalada ao encarar as prisões limpinhas dos Estados Unidos, como reagiria às masmorras medievais malcheirosas e emboloradas brasileiras, nas quais bebês nascem em banheiros e a comida vem com cabelo e fezes de rato? As prisões femininas do Brasil são escuras, encardidas, superlotadas. Camas estendidas em fileiras, como as de Chapman, são um sonho. Em muitas delas, as mulheres dormem no chão, revezando-se para poder esticar as pernas. Os vasos sanitários, além de não terem portas, têm descargas falhas e canos estourados que deixam vazar os cheiros da digestão humana. Itens como xampu, condicionador, sabonete e papel são moeda de troca das mais valiosas e servem de salário para as detentas mais pobres, que trabalham para outras presas como faxineiras ou cabeleireiras”.

No livro de Kerman, temos momentos magníficos de eloquência por parte da autora, em que ela chega no cerne da questão, mesmo que não aprofunde os temas, mas críticas sobre o sistema prisional americano e a forma com que detentos, ex-detentos e pessoas marginalizadas são tratadas pela sociedade.

A prisão é, literalmente, um gueto no sentido mais clássico da palavra, um lugar onde o governo dos Estados Unidos, hoje, não coloca só os perigosos, mas também os inconvenientes — doentes mentais, viciados, pobres, pessoas pouco instruídas e sem profissão. Enquanto isso, o gueto do mundo exterior também é uma prisão, mas uma prisão muito mais difícil de escapar do que esta. Na verdade, existe, basicamente, uma porta giratória entre nossos guetos urbanos e rurais e o gueto formal de nosso sistema prisional.

Apesar de quotes e momentos espetaculares como esse, não é também um livro extraordinário no sentido de se tornar um dos livros da vida, mas é um livro muito bom pensando desta forma, para trazer-nos esta realidade que não nos é tão palpável, essa realidade “invisível”, como Nana também diz ser a brasileira. O final não é tão empolgante como o restante pode até ser, mas não deixou de concluir uma ideia que a autora quis passar durante todo o livro, embora não seja a mais interessante e instigadora. Eu me surpreendi com a leitura, estava com baixas expectativas, já que a maioria das pessoas que o lêem preferem muito mais a série, não incentivam tanto a leitura do livro. Mas eu acho tão necessária quanto assistir a série, que, depois de muito tempo relutando em começar, assisti o piloto neste sábado e, mesmo com a pretensão de ver apenas o piloto, vi quatro episódios seguidos, mesmo antes de terminar o livro, que o fiz hoje.

Sobre a série, embora tendo só visto estes quatro episódios até agora, gostei bastante, e estou bastante empolgada e ansiosa para continuar, até com saudades. Diversas situações, sentimentos, personagens e relacionamentos são modificados, mas, ao que me parece e que ouvi dizer, abre novos caminhos e expande a trama de Piper para chegar a outros (ou mesmo maiores) resultados. Vamos ver o que ela me reserva. Como Nana diz em uma das matérias, que disponibilizarei ao final desta resenha, ela traz uma visibilidade que nos foi e ainda nos é negada até hoje: a da mulher, e sendo independente da do homem. Uma visibilidade não estereotipada, mas real. A de diversas mulheres. Piper Kerman nos trouxe um relato, mas Piper Chapman, pelo que me parece, nos traz vivências. Veremos se a expectativa se concretizará de forma satisfatória.

Links das matérias:

http://revistagalileu.globo.com/Revista/noticia/2015/07/descubra-como-e-vida-das-mulheres-nas-penitenciarias-brasileiras.html

http://oglobo.globo.com/sociedade/livro-revela-horror-das-prisoes-femininas-no-brasil-detentas-usam-miolo-de-pao-como-absorvente-1-16938557

Cristiane Gomes.

Duas resenhas em uma: Playbook + Este é um livro sobre amor

Hoje vou postar de um jeito diferente, que talvez vire um novo modelo aqui para o blog: como os dois livros foram lidos em sequência e são ambos muito curtos, o que presume não tanto para falar, resolvi juntar as duas resenhas em uma só, divididas pelos livros, claro, já que abordam temas diferentes. Na de hoje, vou falar dos livros Playbook: O Manual da Conquista, de Barney Stinson e Matt Kuhn e de Este é um livro sobre amor, da brasileira Paula Gicovate. Estes foram o terceiro e o quarto livros lidos para a #MLI2015, respectivamente.

Como havia saído de uma leitura pesadíssima como a de Capitães, último livro aqui resenhado, quis em seguida o livro mais leve que encontrasse e, como estou maratonando a ótima série How I Met Your Mother faz um tempo, resolvi ler Playbook. Como sabem as pessoas que já viram toda a série ou pelo menos estão junto comigo (estou na quinta temporada), Playbook é o manual de conquista que o (awesome) personagem Barney Stinson usa para conquistar as mulheres, e que nos é apresentado no episódio 5×08, quando mostra o livro para o resto de seus amigos. A Editora Intrínseca então resolveu traduzir este livro para nós, assim como de O Código Bro, outro manual de Barney que conhecemos um tempo antes na série.

Para os fãs da série como eu, esse livro é indispensável! E, tendo já visto o episódio em que o livro é apresentado, ou pelo menos visto a promo que tem no youtube (que deixarei ao final da resenha), como eu fiz, torna-se muito engraçado, enquanto você vai lembrando e associando as cantadas com a série. Mas, claro, só será hilário para quem acompanha a série, porque fora de contexto a personalidade do Barney é bastante duvidosa, mesmo assim não deixamos de amá-lo, hahaha. Dentro do contexto, temos um livro bem legal para os fãs e colecionadores, mas para quem não acompanha só verá problematizações (o que não deixei de fazer, mas…). Para quem já viu o episódio, recomendo. And it’s going to be legen-wait for it-dary, LEGENDARY!

Link para o vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=U6fPh2mm3pw

O próximo que li foi por indicação de duas pessoas. Primeiro livro que leio da Editora Guarda-Chuva, não a conhecia antes. Gostei muito do projeto gráfico deles e do livro em si. As cores da capa e as ilustrações que estão por todo o livro, até na divisão de capítulos, são belíssimas. É um livro que mexeu muito e literalmente comigo, me identifiquei com a personagem (acho improvável em algum momento não) e que foi realmente doído em certos momentos. A história nos apresenta os quatro relacionamentos que a narradora teve ao longo da vida, suas percepções de cada um, seus entrelaçamentos etc. Por mais que eu não tenha conseguido identificá-los na hora, depois reparei que a cada capítulo era outro, o que não dividi mentalmente na hora, li como sequência. Mas que, para mim, não fez diferença, porque em minha interpretação não era o foco da narrativa, e sim mostrar diferentes visões e percepções de relacionamentos em geral, de forma subjetiva, claro. Gostei muito de cada capítulo. Aqui tem cada trecho espetacular, de você querer marcar a página inteira e alguns compartilhar para todos lerem, como farei assim com vocês. Um livro bastante intimista e muito bonito, assim como bastante triste. Gostei muito, e apostarei mais nesta autora, que adorei conhecer. Vale muito a pena conhecê-la. Agora vou deixar alguns trechos para vocês a conhecerem.

[…] eu sou assim mesmo, eu até invento ficção, mas ninguém percebe. Na verdade ninguém vê, porque tudo o que eu invento é real, tudo o que eu invento se torna real, então eu não sei mais o que sou eu e o que é palavra. O que importa é que eu me lembre que tudo o que eu posso fazer é escrever. Não importa como, tudo o que eu posso fazer é escrever.

Devagar, escreva”, e depois escreva mais; e quando o papel acabar escreva nas paredes, escreva no quarto, no banheiro, na cozinha; e quando a tinta acabar fure seus dedos e escreva com sangue, até que o sangue se misture com a tinta, e depois escreva com as mãos, dedilhando palavras invisíveis que ainda assim serão palavras, e escreva, e continue escrevendo, até descer para a rua e escrever nos muros do bairro, com tinta, sangue, mãos, pela rua abaixo, pela cidade inteira, nas areias, nos prédios, no chão. Mas escreva e, quando a mão cansar, se cansar, grite, soletre palavras, cante frases inteiras, até falar cada vez mais alto, até ficar rouca, até perder a voz, até que o resto de barulho se misture com a tinta, com o sangue, com as marcas da sua mão, até que a cidade inteira esteja coberta, e que dentro de você não exista mais nada. Até que não te sobre nenhuma palavra para ser escrita.

(…) A gastrite voltou a doer. Quem escreve já nasce estragado.

Cristiane Gomes.

Capitães da Areia – Jorge Amado

Assim como O Sol é Para Todos, resenha anterior, a do segundo livro lido para a #MLI2015, Capitães da Areia, também será difícil de ser feita. É muita coisa a ser dita e que foi abordada em cada um dos livros, à sua maneira, e não tanto espaço. Mas vamos tentar.

O livro começa com recortes de cartas direcionadas à redação do Jornal da Tarde, entre elas a do secretário do chefe de polícia; a carta-resposta do doutor juiz de menores, sobre as “acusações” direcionadas pelo secretário; a declaração de uma mãe sobre a situação e o tratamento à que são submetidos os menores de idade no reformatório; a corroboração de um padre sobre o tratamento precário e, para ser branda, abusivo, dedicado à essas crianças; e, por último, a carta-resposta do diretor do reformatório, desmentindo obviamente ambas as declarações e assegurando que o reformatório é exemplar e um verdadeiro modelo para a “regeneração” de jovens perdidos pelo crime. Acho que todos nós sabemos que declaração mais se aproxima do real, não é mesmo? A seguir, temos alguns trechos de algumas das cartas, que exemplificam o que foi dito e que são importantíssimas para a compreensão do romance como um todo e da mensagem passada pelo autor, além de que, como veremos ao longo do texto, comprovam discursos que são proferidos até hoje, mostrando-nos que, apesar deste romance ser de 1935, nem tanto se modificou de lá pra cá.

“Eu queria que seu jornal mandasse uma pessoa ver o tal do reformatório para ver como são tratados os filhos dos pobres que têm a desgraça de cair nas mãos daqueles guardas sem alma. Meu filho Alonso teve lá seis meses e se eu não arranjasse tirar ele daquele inferno em vida, não sei se o desgraçado viveria mais seis meses. O menos que acontece pros filhos da gente é apanhar duas e três vezes por dia. O diretor de lá vive caindo de bêbedo e gosta de ver o chicote cantar nas costas dos filhos dos pobres. Eu vi isso muitas vezes porque eles não ligam pra gente e diziam que era para dar exemplo. Foi por isso que tirei meu filho de lá. Se o jornal do senhor mandar uma pessoa lá, secreta, há de ver que comida eles comem, o trabalho de escravo que têm, que nem um homem forte agüenta, e as surras que tomam. Mas é preciso que vá secreto senão se eles souberem vira um céu aberto. Vá de repente e há de ver quem tem razão. E por essas e outras que existem os “Capitães da Areia”. Eu prefiro ver meu filho no meio deles que no tal reformatório” (Declaração da mãe, p. 18).

“[…] sou obrigado a sair da obscuridade em que vivo para vir vos dizer que infelizmente Maria Ricardina tem razão. As crianças no aludido reformatório são tratadas como feras, essa é a verdade. Esqueceram a lição do suave Mestre, sr. Redator, e em vez de conquistarem as crianças com bons tratos, fazem-nas mais revoltadas ainda com espancamentos seguidos e castigos físicos verdadeiramente desumanos. Eu tenho ido lá levar às crianças o consolo da religião e as encontro pouco dispostas a aceitá-lo devido naturalmente ao ódio que estão acumulando naqueles jovens corações tão dignos de piedade. O que tenho visto, sr. Redator, daria um volume” (Declaração do padre, p. 20).

“Quanto à carta de uma mulherzinha do povo, não me preocupei com ela, não merecia a minha resposta. Sem dúvida é uma das muitas que aqui vêm e querem impedir que o Reformatório cumpra a sua santa missão de educar os seus filhos. Elas os criam na rua, na pândega, e como eles aqui são submetidos a uma vida exemplar, elas são as primeiras a reclamar, quando deviam beijar as mãos daqueles que estão fazendo dos seus filhos homens de bem. Primeiro vêm pedir lugar para os filhos. Depois sentem falta deles, do produto dos furtos que eles levam para casa, e então saem a reclamar contra o Reformatório. Mas, como já disse, sr. Diretor, esta carta não me preocupou. Não é uma mulherzinha do povo quem há de compreender a obra que estou realizando à frente deste estabelecimento” (Declaração do dono do reformatório, p. 21).

Para completar o discurso vigente do governo sobre as instituições, o que dizem as autoridades responsáveis por este caso, como os juízes de menores? Temos a resposta antes mesmo destas cartas, na página 17.

“Ainda nestes últimos meses que decorreram mandei para o Reformatório de Menores vários menores delinquentes ou abandonados. Não tenho culpa, porém, de que fujam, que não se impressionem com o exemplo de trabalho que encontram naquele estabelecimento de educação e que, por meio da fuga, abandonem um ambiente onde se respiram paz e trabalho e onde são tratados com o maior carinho. Fogem e se tornam ainda mais perversos, como se o exemplo que houvessem recebido fosse mau e daninho. Por quê? Isso é um problema que aos psicólogos cabe resolver e não a mim, simples curioso da filosofia”.

Como esses trechos já disseram boa parte do que encontraremos pelo livro, não me estenderei tanto mais, e vou direto ao ponto. Em Capitães da Areia, Jorge Amado nos apresenta a vida de meninos de rua da cidade de Salvador, Bahia, que se auto-intitulam assim e que sobrevivem de furtos e trambiques, por serem a maioria órfãos, menores abandonados ou que fugiram de suas casas devido à abusos ou coisas do tipo. Ao contrário do senso comum, que, infelizmente, os reduz à condição de menores infratores e/ou, como vimos na declaração do padre José Pedro — que terá papel essencial na narrativa e na vida destes meninos, contrariando até seus superiores na hierarquia eclesiástica, sendo acusado de ser comunista —, à “feras sem alma”, que apenas roubam (ou se atrevem a fazer até coisas piores) por pura maldade e vagabundagem (até porque todos temos as mesmas oportunidades, cof cof), o autor nos apresenta um outro ponto de vista, e a mais importante: a dos meninos, e dos que convivem mais próximos a eles, como o padre e Dona Aninha, a mãe de santo local. Por esse viés, vemos, a cada personagem (que tem características e personalidade, além de vivência e experiência de vida, que o diferencia do outro), como é a vida quase sempre cruel e difícil destes meninos, que não conhecem o amor e o carinho de pai e mãe, que não tem (ou nunca tiveram) condições dignas de sobrevivência, como moradia, e que convivem com a violência diariamente, e não só da parte deles mesmos, como muitos podem pensar e que Eduardo de Assis Duarte, citado por Milton Hatoum no prefácio, resume de forma excelente:

‘”A violência é meio de ação dos bandidos-mocinhos, mas é também fim nas típicas atitudes de vingança do aparelho repressivo: sede, fome, espancamento, clausura… Em todo o texto, é enfatizado o sentido melodramático de pureza infantil “abandonada e perseguida” no labirinto da cidade degradante e degradada”‘ (p. 275).

Mas não só de dor e violência o livro se compõe. Em um dos capítulos mais emocionantes da Literatura, As Luzes do Carrossel, vemos beleza, inocência e a infância que foi roubada de cada um deles aflorando novamente, em um capítulo muito bonito e ao mesmo tempo muito triste. Vemos como no fundo e, apesar de todo seu histórico e de sua vida adultizada de maneira bastante precoce (os meninos, que não passam dos dezesseis anos, já dormem com mulheres, falam como adultos utilizando-se de palavrões e bebem cerveja, por exemplo), no fundo não passam de crianças, que ficam hipnotizadas e maravilhadas com as luzes multicoloridas do carrossel, a alegria que contagia todos ao redor e a música, que embala todos no mesmo sentimento, de pertencimento. Assim como lemos todas as aventuras vividas por cada um, a liberdade que tanto prezam representadas pelas ruas da cidade, que conhecem tão bem, e o cais, e o sentimento e o amor de uma mãe, uma irmã e uma noiva que uma personagem que só aparecerá na segunda metade do livro, Dora, representará para cada um destes meninos.

Em Capitães da Areia, durante toda a leitura ficamos entregues a um verdadeiro misto de emoções, que podem mudar a cada parágrafo, como o riso, o encantamento, a admiração, a raiva, o ódio, a tristeza, e, bem possível, as lágrimas ao fim. Foi uma história que em alguns momentos quis deixar o livro de lado e não continuar lendo, pelo menos no mesmo dia, e não só pelo o que acontecia a eles, mas também pelo que faziam. Jorge Amado nos provoca de todas as formas, e nos faz pensar, problematizar e nos confundir com as certezas que podemos ter. Um livro que, apesar de curto e de linguagem muito fácil, não é nada leve e delicioso de ler (no sentido dos fatos ocorridos, porque a escrita é um deleite). Um livro que com certeza mexeu/mexe/mexerá com a cabeça de qualquer pessoa que ler, e que traz as convicções que podemos ter ao ralo. Um livro que com certeza o fato de ser obrigatório não é demérito algum, e creio que, como O Sol é Para Todos, também deva ser, que seja estimulado e lido por todos, em todas as idades. Se você tem algum tipo de preconceito pelo autor como eu já tive e muitos também tiveram, pare já com isso e vá ler Capitães da Areia. Um livro para ser lido e relido. Um livro favorito e cinco estrelas.

Ps.: Só queria dizer que o final foi ao mesmo tempo totalmente inesperado e esperado para mim, salvou qualquer coisa que pode ter incomodado durante a leitura. Um final que não poderia esperar diferente, e que reforça o que espero já de Jorge Amado e sua visão política. Um final incrível.

Cristiane Gomes.

Estreia do blog e O Sol é Para Todos (To Kill a Mockingbird) – Harper Lee

Então, gente… quem me acompanha no instagram viu, depois da jornada #LendoHarperLee, criada pela Mell Ferraz do Blog Literature-se, no domingo finalmente terminei de ler este livro incrível. Depois de diversas passagens sensacionais postadas por lá, não teria como deixar de fazer uma resenha sobre ele. Já aviso de antemão que não conseguirei falar como quero sem comentar sobre os acontecimentos ocorridos durante a história e, para falar a verdade, nem acho que isso seja o principal mas, sim, como muitos falam, o modo como é narrado e seus detalhes, a forma inocente, pura e sensível que a narradora nos apresenta o desenrolar de tudo. Apesar de ser uma frase quase que clichê, acho que nesse livro se aplica. Não sei se O Sol é Para Todos é um livro de spoilers. Mas, em respeito aos que não leram – e que deviam imediatamente! –, vou sinalizá-los, caso ocorram.

Em primeiro lugar, este livro conta a história não só de sua narradora, Jean Louise Finch, mais conhecida como Scout, mas de, em certa forma, os moradores do condado de Maycomb, no sul dos Estados Unidos, Alabama, e suas relações em diversos níveis. Em um primeiro momento, na primeira parte do livro, parece-nos que a história é sobre Scout e sua vida em Maycomb, um lugar pacato que, como é descrito por Scout,

Quando chovia, as ruas viravam um lamaçal vermelho; o mato crescia nas calçadas e o tribunal parecia afundar no meio da praça. De alguma maneira, fazia mais calor; (…) Às nove da manhã, o colarinho duro dos homens já estava mole. As mulheres tomavam um banho antes do meio-dia e outro depois da sesta das três da tarde; (…) No calor, as pessoas se movimentavam devagar. (…) Os dias tinham vinte e quatro horas, mas davam a impressão de durar mais. Ninguém tinha pressa, pois não havia aonde ir, nada que comprar nem dinheiro para tal, nem nada para ver nos arredores de Maycomb” (p. 13-14).

Para “agitar” a tranquilidade da vida em Maycomb, em uma das férias de verão um novo garoto aparece, Dill, que nesses períodos fica hospedado na casa de uma das vizinhas da família Finch, tradicional em Maycomb, e que logo faz amizade com Scout e Jem, irmão quatro anos mais velho de Scout. Dill é inspirado em um personagem real, Truman Capote, reconhecido escritor norte-americano por trazer o jornalismo à literatura, e que conviveu com a autora, Harper Lee, desde a infância, caracterizando um aspecto de autobiografia e veracidade à obra. Além disso, o pai de Harper Lee era advogado, assim como Atticus Finch, pai de Scout, e que se tornará de grande importância não só como grande figura paterna, mas também para os acontecimentos da segunda parte da trama. Apesar de ter adorado a pequena Scout, Atticus foi, com certeza, meu personagem favorito na história, e assim como um dos mais amados pais da literatura, assim como personagem em si. Maycomb, que é uma cidade fictícia, também parece corresponder à Monroeville, cidade em que Harper Lee nasceu, também no Alabama.

O fato de a história se passar no Alabama é crucial para a compreensão da trama. O sul dos Estados Unidos é historicamente marcado pela intensa questão racial e seu grande racismo, tema que será bastante e espetacularmente abordado na segunda parte, e que, para mim, é o principal tema abordado pelo livro, através da empatia que qualquer ser humano deva ter em relação ao outro, e que sugere a expressão escolhida pela tradução para o nome do livro. Atticus Finch, como defensor público, é designado para representar Tom Robinson, um negro que é acusado por um pai e filha brancos, de ter violentado e estuprado a filha em questão, Mayella Ewel. Ao longo da narrativa, e isso não é um spoiler, mas o fator primordial, percebemos que Tom não era o culpado, mas sim o próprio pai da menina, que aproveita-se da condição de Tom, em uma sociedade extremamente racista, e o acusa. Eu iria agora expôr os motivos para tanto, mas acho que esses sim são aspectos que seriam mais interessantes que vocês descobrissem quando lessem, e que são imprescindíveis para compreender a mensagem que a autora queria passar, até para entender a personagem de Mayella como também uma vítima daquela sociedade, à sua maneira, assim como Tom Robinson e outro personagem, que falarei mais adiante.

Como esperado, dentro daquela sociedade de racismo enraizado, Atticus e seus filhos começam a ser perseguidos pela posição do pai de não só representar Tom porque foi designado para tanto, mas por acreditar em sua inocência, e tanto apoiá-lo como sua família. A cada vez que são vistos na rua ou em qualquer outro lugar, acusações de Atticus ser um “admirador de pretos”, palavras usadas pelos personagens, são dirigidas a ele e aos filhos, o que causa estranhamento e confusão para estes, principalmente para Scout, por não entender o que isto significa e a carga que isto tem para as outras pessoas, e por parecer ser uma ofensa tão grande. O choque inverso também acontece, quando Calpúrnia, a governanta negra da família, – que caracteriza-se quase como uma mãe para aquelas crianças, quando a verdadeira morre, e que ensina Scout a ler desde muito cedo –, leva as crianças para sua igreja em um domingo, e a comunidade negra questiona o que aquelas crianças brancas faziam ali, já que tinham sua própria igreja, em uma cena escrita de forma genial.

Dado todo esse contexto conflitante na vida dos personagens, o julgamento finalmente acontece, o ponto alto do romance. Com ele, percebemos que esta cidade, que nos parece de início pacata e tranquila, como qualquer outra, é na verdade a realidade existente em todo o país, dado sua história. No julgamento que Scout e Jem veem a verdadeira realidade e a faceta de Maycomb, e como não é nada bonita e gloriosa, mas horrenda. O que nos salva é este lado forte da empatia, que aparece não só por causa de Tom e Mayella, mas pela história dos vizinhos e notadamente por Boo (Arthur) Radley, que primeiro nos aparece com uma história envolta em mistério e horror, com a grande imaginação das três crianças em torno disso, e depois nos surpreende, dado seu papel no final da história, que é belíssimo. O livro também retrata muito bem a questão do gênero, que não dará para eu comentar por motivos de tamanho desta resenha, mas que o autor John Green comenta um pouco de forma genial em um vídeo falando sobre o livro, que deixarei no final desta página. A explicação para o nome no original é muito interessante também, mas que vocês só descobrirão quando lerem. Um livro que, com certeza, entrou para os favoritos da vida, e mais ainda numa listagem desse ano. Cinco estrelas e favoritado, claramente. Um livro para ser relido em diversas épocas.

Falando rapidamente sobre o filme, a adaptação de 1962, foi de grande satisfação para mim, gostei muito do filme. Apesar de grandes cenas terem sido cortadas, como a cena da igreja, a do incêndio da casa da senhorita Maudie e do desfecho do caso em frente a delegacia ter sido diferente, mudanças que com certeza modificaram o tom da história, não comprometeram definitivamente a grandeza e a qualidade do filme, dado as atuações magníficas de todos os atores, em especial a parte final do depoimento de Mayella no julgamento e de Gregory Peck como Atticus, que agora não consigo ver como outro ator poderia fazê-lo. Os três Oscars que a película ganhou foram merecidíssimos, assim como o Pullitzer do livro em 1961 em ficção e seu enorme reconhecimento, assim como a obrigatoriedade da leitura nas escolas norte-americanas, o que eu acharia também muito interessante e válido por aqui. Um livro para todos lerem imediatamente.

Vídeo do John Green sobre o livro: https://www.youtube.com/watch?v=7FlCWbi_gpk

Cristiane Gomes.