Duas resenhas em uma: Playbook + Este é um livro sobre amor

Hoje vou postar de um jeito diferente, que talvez vire um novo modelo aqui para o blog: como os dois livros foram lidos em sequência e são ambos muito curtos, o que presume não tanto para falar, resolvi juntar as duas resenhas em uma só, divididas pelos livros, claro, já que abordam temas diferentes. Na de hoje, vou falar dos livros Playbook: O Manual da Conquista, de Barney Stinson e Matt Kuhn e de Este é um livro sobre amor, da brasileira Paula Gicovate. Estes foram o terceiro e o quarto livros lidos para a #MLI2015, respectivamente.

Como havia saído de uma leitura pesadíssima como a de Capitães, último livro aqui resenhado, quis em seguida o livro mais leve que encontrasse e, como estou maratonando a ótima série How I Met Your Mother faz um tempo, resolvi ler Playbook. Como sabem as pessoas que já viram toda a série ou pelo menos estão junto comigo (estou na quinta temporada), Playbook é o manual de conquista que o (awesome) personagem Barney Stinson usa para conquistar as mulheres, e que nos é apresentado no episódio 5×08, quando mostra o livro para o resto de seus amigos. A Editora Intrínseca então resolveu traduzir este livro para nós, assim como de O Código Bro, outro manual de Barney que conhecemos um tempo antes na série.

Para os fãs da série como eu, esse livro é indispensável! E, tendo já visto o episódio em que o livro é apresentado, ou pelo menos visto a promo que tem no youtube (que deixarei ao final da resenha), como eu fiz, torna-se muito engraçado, enquanto você vai lembrando e associando as cantadas com a série. Mas, claro, só será hilário para quem acompanha a série, porque fora de contexto a personalidade do Barney é bastante duvidosa, mesmo assim não deixamos de amá-lo, hahaha. Dentro do contexto, temos um livro bem legal para os fãs e colecionadores, mas para quem não acompanha só verá problematizações (o que não deixei de fazer, mas…). Para quem já viu o episódio, recomendo. And it’s going to be legen-wait for it-dary, LEGENDARY!

Link para o vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=U6fPh2mm3pw

O próximo que li foi por indicação de duas pessoas. Primeiro livro que leio da Editora Guarda-Chuva, não a conhecia antes. Gostei muito do projeto gráfico deles e do livro em si. As cores da capa e as ilustrações que estão por todo o livro, até na divisão de capítulos, são belíssimas. É um livro que mexeu muito e literalmente comigo, me identifiquei com a personagem (acho improvável em algum momento não) e que foi realmente doído em certos momentos. A história nos apresenta os quatro relacionamentos que a narradora teve ao longo da vida, suas percepções de cada um, seus entrelaçamentos etc. Por mais que eu não tenha conseguido identificá-los na hora, depois reparei que a cada capítulo era outro, o que não dividi mentalmente na hora, li como sequência. Mas que, para mim, não fez diferença, porque em minha interpretação não era o foco da narrativa, e sim mostrar diferentes visões e percepções de relacionamentos em geral, de forma subjetiva, claro. Gostei muito de cada capítulo. Aqui tem cada trecho espetacular, de você querer marcar a página inteira e alguns compartilhar para todos lerem, como farei assim com vocês. Um livro bastante intimista e muito bonito, assim como bastante triste. Gostei muito, e apostarei mais nesta autora, que adorei conhecer. Vale muito a pena conhecê-la. Agora vou deixar alguns trechos para vocês a conhecerem.

[…] eu sou assim mesmo, eu até invento ficção, mas ninguém percebe. Na verdade ninguém vê, porque tudo o que eu invento é real, tudo o que eu invento se torna real, então eu não sei mais o que sou eu e o que é palavra. O que importa é que eu me lembre que tudo o que eu posso fazer é escrever. Não importa como, tudo o que eu posso fazer é escrever.

Devagar, escreva”, e depois escreva mais; e quando o papel acabar escreva nas paredes, escreva no quarto, no banheiro, na cozinha; e quando a tinta acabar fure seus dedos e escreva com sangue, até que o sangue se misture com a tinta, e depois escreva com as mãos, dedilhando palavras invisíveis que ainda assim serão palavras, e escreva, e continue escrevendo, até descer para a rua e escrever nos muros do bairro, com tinta, sangue, mãos, pela rua abaixo, pela cidade inteira, nas areias, nos prédios, no chão. Mas escreva e, quando a mão cansar, se cansar, grite, soletre palavras, cante frases inteiras, até falar cada vez mais alto, até ficar rouca, até perder a voz, até que o resto de barulho se misture com a tinta, com o sangue, com as marcas da sua mão, até que a cidade inteira esteja coberta, e que dentro de você não exista mais nada. Até que não te sobre nenhuma palavra para ser escrita.

(…) A gastrite voltou a doer. Quem escreve já nasce estragado.

Cristiane Gomes.

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Capitães da Areia – Jorge Amado

Assim como O Sol é Para Todos, resenha anterior, a do segundo livro lido para a #MLI2015, Capitães da Areia, também será difícil de ser feita. É muita coisa a ser dita e que foi abordada em cada um dos livros, à sua maneira, e não tanto espaço. Mas vamos tentar.

O livro começa com recortes de cartas direcionadas à redação do Jornal da Tarde, entre elas a do secretário do chefe de polícia; a carta-resposta do doutor juiz de menores, sobre as “acusações” direcionadas pelo secretário; a declaração de uma mãe sobre a situação e o tratamento à que são submetidos os menores de idade no reformatório; a corroboração de um padre sobre o tratamento precário e, para ser branda, abusivo, dedicado à essas crianças; e, por último, a carta-resposta do diretor do reformatório, desmentindo obviamente ambas as declarações e assegurando que o reformatório é exemplar e um verdadeiro modelo para a “regeneração” de jovens perdidos pelo crime. Acho que todos nós sabemos que declaração mais se aproxima do real, não é mesmo? A seguir, temos alguns trechos de algumas das cartas, que exemplificam o que foi dito e que são importantíssimas para a compreensão do romance como um todo e da mensagem passada pelo autor, além de que, como veremos ao longo do texto, comprovam discursos que são proferidos até hoje, mostrando-nos que, apesar deste romance ser de 1935, nem tanto se modificou de lá pra cá.

“Eu queria que seu jornal mandasse uma pessoa ver o tal do reformatório para ver como são tratados os filhos dos pobres que têm a desgraça de cair nas mãos daqueles guardas sem alma. Meu filho Alonso teve lá seis meses e se eu não arranjasse tirar ele daquele inferno em vida, não sei se o desgraçado viveria mais seis meses. O menos que acontece pros filhos da gente é apanhar duas e três vezes por dia. O diretor de lá vive caindo de bêbedo e gosta de ver o chicote cantar nas costas dos filhos dos pobres. Eu vi isso muitas vezes porque eles não ligam pra gente e diziam que era para dar exemplo. Foi por isso que tirei meu filho de lá. Se o jornal do senhor mandar uma pessoa lá, secreta, há de ver que comida eles comem, o trabalho de escravo que têm, que nem um homem forte agüenta, e as surras que tomam. Mas é preciso que vá secreto senão se eles souberem vira um céu aberto. Vá de repente e há de ver quem tem razão. E por essas e outras que existem os “Capitães da Areia”. Eu prefiro ver meu filho no meio deles que no tal reformatório” (Declaração da mãe, p. 18).

“[…] sou obrigado a sair da obscuridade em que vivo para vir vos dizer que infelizmente Maria Ricardina tem razão. As crianças no aludido reformatório são tratadas como feras, essa é a verdade. Esqueceram a lição do suave Mestre, sr. Redator, e em vez de conquistarem as crianças com bons tratos, fazem-nas mais revoltadas ainda com espancamentos seguidos e castigos físicos verdadeiramente desumanos. Eu tenho ido lá levar às crianças o consolo da religião e as encontro pouco dispostas a aceitá-lo devido naturalmente ao ódio que estão acumulando naqueles jovens corações tão dignos de piedade. O que tenho visto, sr. Redator, daria um volume” (Declaração do padre, p. 20).

“Quanto à carta de uma mulherzinha do povo, não me preocupei com ela, não merecia a minha resposta. Sem dúvida é uma das muitas que aqui vêm e querem impedir que o Reformatório cumpra a sua santa missão de educar os seus filhos. Elas os criam na rua, na pândega, e como eles aqui são submetidos a uma vida exemplar, elas são as primeiras a reclamar, quando deviam beijar as mãos daqueles que estão fazendo dos seus filhos homens de bem. Primeiro vêm pedir lugar para os filhos. Depois sentem falta deles, do produto dos furtos que eles levam para casa, e então saem a reclamar contra o Reformatório. Mas, como já disse, sr. Diretor, esta carta não me preocupou. Não é uma mulherzinha do povo quem há de compreender a obra que estou realizando à frente deste estabelecimento” (Declaração do dono do reformatório, p. 21).

Para completar o discurso vigente do governo sobre as instituições, o que dizem as autoridades responsáveis por este caso, como os juízes de menores? Temos a resposta antes mesmo destas cartas, na página 17.

“Ainda nestes últimos meses que decorreram mandei para o Reformatório de Menores vários menores delinquentes ou abandonados. Não tenho culpa, porém, de que fujam, que não se impressionem com o exemplo de trabalho que encontram naquele estabelecimento de educação e que, por meio da fuga, abandonem um ambiente onde se respiram paz e trabalho e onde são tratados com o maior carinho. Fogem e se tornam ainda mais perversos, como se o exemplo que houvessem recebido fosse mau e daninho. Por quê? Isso é um problema que aos psicólogos cabe resolver e não a mim, simples curioso da filosofia”.

Como esses trechos já disseram boa parte do que encontraremos pelo livro, não me estenderei tanto mais, e vou direto ao ponto. Em Capitães da Areia, Jorge Amado nos apresenta a vida de meninos de rua da cidade de Salvador, Bahia, que se auto-intitulam assim e que sobrevivem de furtos e trambiques, por serem a maioria órfãos, menores abandonados ou que fugiram de suas casas devido à abusos ou coisas do tipo. Ao contrário do senso comum, que, infelizmente, os reduz à condição de menores infratores e/ou, como vimos na declaração do padre José Pedro — que terá papel essencial na narrativa e na vida destes meninos, contrariando até seus superiores na hierarquia eclesiástica, sendo acusado de ser comunista —, à “feras sem alma”, que apenas roubam (ou se atrevem a fazer até coisas piores) por pura maldade e vagabundagem (até porque todos temos as mesmas oportunidades, cof cof), o autor nos apresenta um outro ponto de vista, e a mais importante: a dos meninos, e dos que convivem mais próximos a eles, como o padre e Dona Aninha, a mãe de santo local. Por esse viés, vemos, a cada personagem (que tem características e personalidade, além de vivência e experiência de vida, que o diferencia do outro), como é a vida quase sempre cruel e difícil destes meninos, que não conhecem o amor e o carinho de pai e mãe, que não tem (ou nunca tiveram) condições dignas de sobrevivência, como moradia, e que convivem com a violência diariamente, e não só da parte deles mesmos, como muitos podem pensar e que Eduardo de Assis Duarte, citado por Milton Hatoum no prefácio, resume de forma excelente:

‘”A violência é meio de ação dos bandidos-mocinhos, mas é também fim nas típicas atitudes de vingança do aparelho repressivo: sede, fome, espancamento, clausura… Em todo o texto, é enfatizado o sentido melodramático de pureza infantil “abandonada e perseguida” no labirinto da cidade degradante e degradada”‘ (p. 275).

Mas não só de dor e violência o livro se compõe. Em um dos capítulos mais emocionantes da Literatura, As Luzes do Carrossel, vemos beleza, inocência e a infância que foi roubada de cada um deles aflorando novamente, em um capítulo muito bonito e ao mesmo tempo muito triste. Vemos como no fundo e, apesar de todo seu histórico e de sua vida adultizada de maneira bastante precoce (os meninos, que não passam dos dezesseis anos, já dormem com mulheres, falam como adultos utilizando-se de palavrões e bebem cerveja, por exemplo), no fundo não passam de crianças, que ficam hipnotizadas e maravilhadas com as luzes multicoloridas do carrossel, a alegria que contagia todos ao redor e a música, que embala todos no mesmo sentimento, de pertencimento. Assim como lemos todas as aventuras vividas por cada um, a liberdade que tanto prezam representadas pelas ruas da cidade, que conhecem tão bem, e o cais, e o sentimento e o amor de uma mãe, uma irmã e uma noiva que uma personagem que só aparecerá na segunda metade do livro, Dora, representará para cada um destes meninos.

Em Capitães da Areia, durante toda a leitura ficamos entregues a um verdadeiro misto de emoções, que podem mudar a cada parágrafo, como o riso, o encantamento, a admiração, a raiva, o ódio, a tristeza, e, bem possível, as lágrimas ao fim. Foi uma história que em alguns momentos quis deixar o livro de lado e não continuar lendo, pelo menos no mesmo dia, e não só pelo o que acontecia a eles, mas também pelo que faziam. Jorge Amado nos provoca de todas as formas, e nos faz pensar, problematizar e nos confundir com as certezas que podemos ter. Um livro que, apesar de curto e de linguagem muito fácil, não é nada leve e delicioso de ler (no sentido dos fatos ocorridos, porque a escrita é um deleite). Um livro que com certeza mexeu/mexe/mexerá com a cabeça de qualquer pessoa que ler, e que traz as convicções que podemos ter ao ralo. Um livro que com certeza o fato de ser obrigatório não é demérito algum, e creio que, como O Sol é Para Todos, também deva ser, que seja estimulado e lido por todos, em todas as idades. Se você tem algum tipo de preconceito pelo autor como eu já tive e muitos também tiveram, pare já com isso e vá ler Capitães da Areia. Um livro para ser lido e relido. Um livro favorito e cinco estrelas.

Ps.: Só queria dizer que o final foi ao mesmo tempo totalmente inesperado e esperado para mim, salvou qualquer coisa que pode ter incomodado durante a leitura. Um final que não poderia esperar diferente, e que reforça o que espero já de Jorge Amado e sua visão política. Um final incrível.

Cristiane Gomes.

Estreia do blog e O Sol é Para Todos (To Kill a Mockingbird) – Harper Lee

Então, gente… quem me acompanha no instagram viu, depois da jornada #LendoHarperLee, criada pela Mell Ferraz do Blog Literature-se, no domingo finalmente terminei de ler este livro incrível. Depois de diversas passagens sensacionais postadas por lá, não teria como deixar de fazer uma resenha sobre ele. Já aviso de antemão que não conseguirei falar como quero sem comentar sobre os acontecimentos ocorridos durante a história e, para falar a verdade, nem acho que isso seja o principal mas, sim, como muitos falam, o modo como é narrado e seus detalhes, a forma inocente, pura e sensível que a narradora nos apresenta o desenrolar de tudo. Apesar de ser uma frase quase que clichê, acho que nesse livro se aplica. Não sei se O Sol é Para Todos é um livro de spoilers. Mas, em respeito aos que não leram – e que deviam imediatamente! –, vou sinalizá-los, caso ocorram.

Em primeiro lugar, este livro conta a história não só de sua narradora, Jean Louise Finch, mais conhecida como Scout, mas de, em certa forma, os moradores do condado de Maycomb, no sul dos Estados Unidos, Alabama, e suas relações em diversos níveis. Em um primeiro momento, na primeira parte do livro, parece-nos que a história é sobre Scout e sua vida em Maycomb, um lugar pacato que, como é descrito por Scout,

Quando chovia, as ruas viravam um lamaçal vermelho; o mato crescia nas calçadas e o tribunal parecia afundar no meio da praça. De alguma maneira, fazia mais calor; (…) Às nove da manhã, o colarinho duro dos homens já estava mole. As mulheres tomavam um banho antes do meio-dia e outro depois da sesta das três da tarde; (…) No calor, as pessoas se movimentavam devagar. (…) Os dias tinham vinte e quatro horas, mas davam a impressão de durar mais. Ninguém tinha pressa, pois não havia aonde ir, nada que comprar nem dinheiro para tal, nem nada para ver nos arredores de Maycomb” (p. 13-14).

Para “agitar” a tranquilidade da vida em Maycomb, em uma das férias de verão um novo garoto aparece, Dill, que nesses períodos fica hospedado na casa de uma das vizinhas da família Finch, tradicional em Maycomb, e que logo faz amizade com Scout e Jem, irmão quatro anos mais velho de Scout. Dill é inspirado em um personagem real, Truman Capote, reconhecido escritor norte-americano por trazer o jornalismo à literatura, e que conviveu com a autora, Harper Lee, desde a infância, caracterizando um aspecto de autobiografia e veracidade à obra. Além disso, o pai de Harper Lee era advogado, assim como Atticus Finch, pai de Scout, e que se tornará de grande importância não só como grande figura paterna, mas também para os acontecimentos da segunda parte da trama. Apesar de ter adorado a pequena Scout, Atticus foi, com certeza, meu personagem favorito na história, e assim como um dos mais amados pais da literatura, assim como personagem em si. Maycomb, que é uma cidade fictícia, também parece corresponder à Monroeville, cidade em que Harper Lee nasceu, também no Alabama.

O fato de a história se passar no Alabama é crucial para a compreensão da trama. O sul dos Estados Unidos é historicamente marcado pela intensa questão racial e seu grande racismo, tema que será bastante e espetacularmente abordado na segunda parte, e que, para mim, é o principal tema abordado pelo livro, através da empatia que qualquer ser humano deva ter em relação ao outro, e que sugere a expressão escolhida pela tradução para o nome do livro. Atticus Finch, como defensor público, é designado para representar Tom Robinson, um negro que é acusado por um pai e filha brancos, de ter violentado e estuprado a filha em questão, Mayella Ewel. Ao longo da narrativa, e isso não é um spoiler, mas o fator primordial, percebemos que Tom não era o culpado, mas sim o próprio pai da menina, que aproveita-se da condição de Tom, em uma sociedade extremamente racista, e o acusa. Eu iria agora expôr os motivos para tanto, mas acho que esses sim são aspectos que seriam mais interessantes que vocês descobrissem quando lessem, e que são imprescindíveis para compreender a mensagem que a autora queria passar, até para entender a personagem de Mayella como também uma vítima daquela sociedade, à sua maneira, assim como Tom Robinson e outro personagem, que falarei mais adiante.

Como esperado, dentro daquela sociedade de racismo enraizado, Atticus e seus filhos começam a ser perseguidos pela posição do pai de não só representar Tom porque foi designado para tanto, mas por acreditar em sua inocência, e tanto apoiá-lo como sua família. A cada vez que são vistos na rua ou em qualquer outro lugar, acusações de Atticus ser um “admirador de pretos”, palavras usadas pelos personagens, são dirigidas a ele e aos filhos, o que causa estranhamento e confusão para estes, principalmente para Scout, por não entender o que isto significa e a carga que isto tem para as outras pessoas, e por parecer ser uma ofensa tão grande. O choque inverso também acontece, quando Calpúrnia, a governanta negra da família, – que caracteriza-se quase como uma mãe para aquelas crianças, quando a verdadeira morre, e que ensina Scout a ler desde muito cedo –, leva as crianças para sua igreja em um domingo, e a comunidade negra questiona o que aquelas crianças brancas faziam ali, já que tinham sua própria igreja, em uma cena escrita de forma genial.

Dado todo esse contexto conflitante na vida dos personagens, o julgamento finalmente acontece, o ponto alto do romance. Com ele, percebemos que esta cidade, que nos parece de início pacata e tranquila, como qualquer outra, é na verdade a realidade existente em todo o país, dado sua história. No julgamento que Scout e Jem veem a verdadeira realidade e a faceta de Maycomb, e como não é nada bonita e gloriosa, mas horrenda. O que nos salva é este lado forte da empatia, que aparece não só por causa de Tom e Mayella, mas pela história dos vizinhos e notadamente por Boo (Arthur) Radley, que primeiro nos aparece com uma história envolta em mistério e horror, com a grande imaginação das três crianças em torno disso, e depois nos surpreende, dado seu papel no final da história, que é belíssimo. O livro também retrata muito bem a questão do gênero, que não dará para eu comentar por motivos de tamanho desta resenha, mas que o autor John Green comenta um pouco de forma genial em um vídeo falando sobre o livro, que deixarei no final desta página. A explicação para o nome no original é muito interessante também, mas que vocês só descobrirão quando lerem. Um livro que, com certeza, entrou para os favoritos da vida, e mais ainda numa listagem desse ano. Cinco estrelas e favoritado, claramente. Um livro para ser relido em diversas épocas.

Falando rapidamente sobre o filme, a adaptação de 1962, foi de grande satisfação para mim, gostei muito do filme. Apesar de grandes cenas terem sido cortadas, como a cena da igreja, a do incêndio da casa da senhorita Maudie e do desfecho do caso em frente a delegacia ter sido diferente, mudanças que com certeza modificaram o tom da história, não comprometeram definitivamente a grandeza e a qualidade do filme, dado as atuações magníficas de todos os atores, em especial a parte final do depoimento de Mayella no julgamento e de Gregory Peck como Atticus, que agora não consigo ver como outro ator poderia fazê-lo. Os três Oscars que a película ganhou foram merecidíssimos, assim como o Pullitzer do livro em 1961 em ficção e seu enorme reconhecimento, assim como a obrigatoriedade da leitura nas escolas norte-americanas, o que eu acharia também muito interessante e válido por aqui. Um livro para todos lerem imediatamente.

Vídeo do John Green sobre o livro: https://www.youtube.com/watch?v=7FlCWbi_gpk

Cristiane Gomes.