Lendo a Ditadura: Antes do Golpe – Ferreira Gullar

Todos nós sabemos que estamos em um período de grande instabilidade política, dentro de uma crise político-econômica, em que novos pedidos de impeachment, desta vez para a presidenta atual, Dilma Rousseff, estão sendo clamados por boa parte da população. Nosso último vislumbre disso foi no dia 16 de agosto, na manifestação contra a presidenta, só que os clamores não pararam por aí: vimos, infelizmente, muitos cartazes que pediam a volta da ditadura militar, que durou 21 anos em nosso país, durante os anos de 1964 a 1985, inclusive pedidos em outras línguas, o que nos remete a situações passadas.

Dado isto, a Paula Dutra do blog Pipa não sabe voar, em parceria com outros blogueiros, booktubers e mesmo leitores, criaram o projeto e blog Lendo a Ditadura, da qual embarquei junto, em que leremos obras que retratam esse período em nosso país ou mesmo sobre o contexto que o proporcionou, além da utilização de outras mídias, como pinturas, músicas, filmes/documentários, entre outros. A minha primeira contribuição será com o breve, mas excelente e muito ambicioso, ensaio Antes do Golpe: Notas sobre o processo que culminou no golpe militar de 1964, do maranhense Ferreira Gullar.

Gullar começa seu ensaio já afirmando o que não nos é muito sabido pelo senso comum, e que eu mesma só descobri a sua profundidade e suas diversas nuances e influências já no curso de História, e que foi muito bem explorado e complementar para meu conhecimento pelo autor: de que o golpe começou muito antes de 31 de março de 1964, e que, além da inegável e importantíssima contribuição da conjuntura nacional desde Vargas, houve a influência de fora do país, essencialmente dos Estados Unidos.

Esse projeto de golpe, que se concretizou em 1964, já era arquitetado desde o governo getulista, em que o presidente foi deposto pelos militares em 1945, porém, em 1950, Vargas se candidata novamente e ganha, o que os deixa insatisfeitos e, junto com seu líder civil, o jornalista Carlos Lacerda, consideram uma afronta à democracia sua eleição. A partir disso, uma campanha é iniciada para inviabilizar seu governo. Um atentado contra Carlos Lacerda, atribuído à Vargas, deflagra uma crise militar, o que os militares insistem em que Vargas deveria deixar o governo.

Com exceção de Café Filho, os presidentes sucessores tinham como vice-presidente João Goulart, que era herdeiro político de Vargas, e que presumia o retorno do getulismo ao poder, consequentemente intensificando-se a campanha de Lacerda e dos militares. Quando foi a vez de Goulart estar no poder, com a renúncia de Jânio Quadros, claramente houve tentativas de impedir sua posse, o que não se concretizou, com o reconhecimento do Congresso como sucessor político de Jânio e com o apoio de Leonel Brizola, juntamente com o III Exército do Rio Grande do Sul, sua posse foi garantida.

Além de toda a conjuntura política nacional, internacionalmente ocorreram vários eventos que contribuíram, de certa forma, para esta conjuntura, tanto pré como pós golpe: a Revolução Cubana em 1959; a Guerra Fria, instaurada pós-Segunda Guerra Mundial; o nascimento da República Popular da China, por Mao Tsé-Tung.

É fato que, logo após o fim da Segunda Guerra, os norte-americanos se preocuparam com o crescente poder da União Soviética e seu trabalho de cooptação das lideranças sindicais e intelectuais em todo o mundo – e naturalmente nos países menos desenvolvidos, onde os problemas sociais eram mais agudos. Por isso mesmo, Washington tratou de ampliar sua influência sobre os militares desses países, sobretudo na América Latina, criando escolas de formação de oficiais no Panamá, Colômbia, Chile e Brasil, entre outros países. Sua atuação foi incrementada depois da Revolução Cubana, quando a Escola do Caribe passou a se chamar Escola das Américas, por onde passaram, entre 1961 e l977, mais de 33 mil militares. Essa escola ganhou o apelido de “escola dos golpes”, tal foi a sua influência sobre as forças armadas latino-americanas, que, com certa frequência, punham abaixo algum governo democraticamente eleito. No Brasil, foi criada a Escola Superior de Guerra, que fez a cabeça de centenas de oficiais, alguns dos quais participaram ativamente na conspiração que resultou no golpe de 1964.

Em seguida, Gullar retrata como foi o governo conturbado de Jango, com uma grande pressão interna e externa. Já perto do golpe, ‘”a Igreja Católica, que sentia internamente as consequências dessas mudanças, mobilizou seus seguidores para uma manifestação que se intitulou “Passeata com Deus pela Família” e que reuniu milhares de pessoas”‘. Lincoln Gordon, embaixador dos Estados Unidos, informou Washington do que ocorria no Brasil, e da possibilidade crescente de o governo brasileiro derivar para um regime comunista, então, pelo que parece, entrou em contato com chefes militares, que também conspiravam contra Jango, e os estimulou, garantindo que o novo presidente logo seria reconhecido por seu governo. Finalmente, Gullar nos apresenta os últimos passos, as últimas horas antes do golpe, onde se encontrava em cada acontecimento e seu envolvimento, como presidente do Centro Popular de Cultura da UNE.

Cristiane Gomes.

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Orange is the New Black – Piper Kerman

A leitura deste livro não poderia ter sido em melhor momento: no final do mês passado, através da publicação de um livro chamado Presos que Menstruam, pela Editora Record, e através de diversas matérias em várias mídias, inclusive entrevistas com a autora do livro, a jornalista Nana Queiroz, pudemos saber mais sobre a realidade um tanto invisível para nós de fora, a realidade das mulheres brasileiras presas. Nestas matérias, presenciamos declarações, dados e constatações chocantes e terríveis, como detentas usando miolo de pão no lugar de absorventes íntimos, ou coisas piores, como veremos mais a frente. Como muitos já sabem, Orange is the new Black, da Editora Intrínseca, que também conta com uma aclamada série criada pelo Netflix, conta a história de Piper Kerman (Piper Chapman na série), uma loira de classe média que, após ter carregado uma mala cheia de dinheiro de tráfico de drogas há dez anos, para uma ex-namorada, é indiciada e condenada a treze meses em uma prisão federal de segurança mínima, tendo que conviver com diversos tipos de mulheres, de raças, condições sociais e econômicas diferentes de sua realidade.

Em um primeiro momento, pode parecer para alguns um plot simples ou bobo, que não chama a atenção de qualquer um, já esperando uma mulher mimada ou algo assim. Mas não se enganem. O que chama a atenção no livro (e que na série é um tanto diferente) é a dura realidade com que essas mulheres vivem, e que essa realidade atinge de formas muito diferentes cada tipo de mulher: como Piper nos conta em seu livro, que é de seu caso real, muitas mulheres nunca trabalharam em empregos formais na vida, apenas informais, e ficam se perguntando o que será de seu sustento no dia que saírem, já que não há recomendações ou incentivos para que ex-detentas sejam contratadas, muito pelo contrário; mulheres que tiveram seus filhos tomados de si e suas famílias fragmentadas, e que terão que reconciliá-las com a saída; mulheres com penas muito longas e que não enxergam mais vida fora, entre outras. Piper, ao longo de seu relato, percebe o quão privilegiada é, com um noivo a sua espera do lado de fora durante toda a pena, e que a visita semanalmente, assim como sua forte família, que continua a apoiá-la; um emprego seguro e garantido quando sair, oferecido por um amigo; e, claro, uma condição financeira e emocional seguras para a receberem. Realidade que não é de quase nenhuma detenta.

Mas também deve-se levar em conta que a realidade das prisões americanas, apesar de o país conter a maior população carcerária do mundo, cerca de 25%, não é a pior do mundo, como temos o nosso próprio exemplo, e a jornalista Nana Queiroz tenta mostrar em seu livro, e que achei interessante trazer pra cá e essa discussão, mesmo que a resenha não seja desse livro e mesmo que eu tenha lido, o que ainda não tive a oportunidade.

A luta diária dessas mulheres é por higiene e dignidade. Piper Chapman, protagonista da série Orange is the New Black, cuja terceira temporada acabou de estrear no Netflix, provavelmente não sobreviveria numa prisão brasileira. Se a loira ficou abalada ao encarar as prisões limpinhas dos Estados Unidos, como reagiria às masmorras medievais malcheirosas e emboloradas brasileiras, nas quais bebês nascem em banheiros e a comida vem com cabelo e fezes de rato? As prisões femininas do Brasil são escuras, encardidas, superlotadas. Camas estendidas em fileiras, como as de Chapman, são um sonho. Em muitas delas, as mulheres dormem no chão, revezando-se para poder esticar as pernas. Os vasos sanitários, além de não terem portas, têm descargas falhas e canos estourados que deixam vazar os cheiros da digestão humana. Itens como xampu, condicionador, sabonete e papel são moeda de troca das mais valiosas e servem de salário para as detentas mais pobres, que trabalham para outras presas como faxineiras ou cabeleireiras”.

No livro de Kerman, temos momentos magníficos de eloquência por parte da autora, em que ela chega no cerne da questão, mesmo que não aprofunde os temas, mas críticas sobre o sistema prisional americano e a forma com que detentos, ex-detentos e pessoas marginalizadas são tratadas pela sociedade.

A prisão é, literalmente, um gueto no sentido mais clássico da palavra, um lugar onde o governo dos Estados Unidos, hoje, não coloca só os perigosos, mas também os inconvenientes — doentes mentais, viciados, pobres, pessoas pouco instruídas e sem profissão. Enquanto isso, o gueto do mundo exterior também é uma prisão, mas uma prisão muito mais difícil de escapar do que esta. Na verdade, existe, basicamente, uma porta giratória entre nossos guetos urbanos e rurais e o gueto formal de nosso sistema prisional.

Apesar de quotes e momentos espetaculares como esse, não é também um livro extraordinário no sentido de se tornar um dos livros da vida, mas é um livro muito bom pensando desta forma, para trazer-nos esta realidade que não nos é tão palpável, essa realidade “invisível”, como Nana também diz ser a brasileira. O final não é tão empolgante como o restante pode até ser, mas não deixou de concluir uma ideia que a autora quis passar durante todo o livro, embora não seja a mais interessante e instigadora. Eu me surpreendi com a leitura, estava com baixas expectativas, já que a maioria das pessoas que o lêem preferem muito mais a série, não incentivam tanto a leitura do livro. Mas eu acho tão necessária quanto assistir a série, que, depois de muito tempo relutando em começar, assisti o piloto neste sábado e, mesmo com a pretensão de ver apenas o piloto, vi quatro episódios seguidos, mesmo antes de terminar o livro, que o fiz hoje.

Sobre a série, embora tendo só visto estes quatro episódios até agora, gostei bastante, e estou bastante empolgada e ansiosa para continuar, até com saudades. Diversas situações, sentimentos, personagens e relacionamentos são modificados, mas, ao que me parece e que ouvi dizer, abre novos caminhos e expande a trama de Piper para chegar a outros (ou mesmo maiores) resultados. Vamos ver o que ela me reserva. Como Nana diz em uma das matérias, que disponibilizarei ao final desta resenha, ela traz uma visibilidade que nos foi e ainda nos é negada até hoje: a da mulher, e sendo independente da do homem. Uma visibilidade não estereotipada, mas real. A de diversas mulheres. Piper Kerman nos trouxe um relato, mas Piper Chapman, pelo que me parece, nos traz vivências. Veremos se a expectativa se concretizará de forma satisfatória.

Links das matérias:

http://revistagalileu.globo.com/Revista/noticia/2015/07/descubra-como-e-vida-das-mulheres-nas-penitenciarias-brasileiras.html

http://oglobo.globo.com/sociedade/livro-revela-horror-das-prisoes-femininas-no-brasil-detentas-usam-miolo-de-pao-como-absorvente-1-16938557

Cristiane Gomes.