Capitães da Areia – Jorge Amado

Assim como O Sol é Para Todos, resenha anterior, a do segundo livro lido para a #MLI2015, Capitães da Areia, também será difícil de ser feita. É muita coisa a ser dita e que foi abordada em cada um dos livros, à sua maneira, e não tanto espaço. Mas vamos tentar.

O livro começa com recortes de cartas direcionadas à redação do Jornal da Tarde, entre elas a do secretário do chefe de polícia; a carta-resposta do doutor juiz de menores, sobre as “acusações” direcionadas pelo secretário; a declaração de uma mãe sobre a situação e o tratamento à que são submetidos os menores de idade no reformatório; a corroboração de um padre sobre o tratamento precário e, para ser branda, abusivo, dedicado à essas crianças; e, por último, a carta-resposta do diretor do reformatório, desmentindo obviamente ambas as declarações e assegurando que o reformatório é exemplar e um verdadeiro modelo para a “regeneração” de jovens perdidos pelo crime. Acho que todos nós sabemos que declaração mais se aproxima do real, não é mesmo? A seguir, temos alguns trechos de algumas das cartas, que exemplificam o que foi dito e que são importantíssimas para a compreensão do romance como um todo e da mensagem passada pelo autor, além de que, como veremos ao longo do texto, comprovam discursos que são proferidos até hoje, mostrando-nos que, apesar deste romance ser de 1935, nem tanto se modificou de lá pra cá.

“Eu queria que seu jornal mandasse uma pessoa ver o tal do reformatório para ver como são tratados os filhos dos pobres que têm a desgraça de cair nas mãos daqueles guardas sem alma. Meu filho Alonso teve lá seis meses e se eu não arranjasse tirar ele daquele inferno em vida, não sei se o desgraçado viveria mais seis meses. O menos que acontece pros filhos da gente é apanhar duas e três vezes por dia. O diretor de lá vive caindo de bêbedo e gosta de ver o chicote cantar nas costas dos filhos dos pobres. Eu vi isso muitas vezes porque eles não ligam pra gente e diziam que era para dar exemplo. Foi por isso que tirei meu filho de lá. Se o jornal do senhor mandar uma pessoa lá, secreta, há de ver que comida eles comem, o trabalho de escravo que têm, que nem um homem forte agüenta, e as surras que tomam. Mas é preciso que vá secreto senão se eles souberem vira um céu aberto. Vá de repente e há de ver quem tem razão. E por essas e outras que existem os “Capitães da Areia”. Eu prefiro ver meu filho no meio deles que no tal reformatório” (Declaração da mãe, p. 18).

“[…] sou obrigado a sair da obscuridade em que vivo para vir vos dizer que infelizmente Maria Ricardina tem razão. As crianças no aludido reformatório são tratadas como feras, essa é a verdade. Esqueceram a lição do suave Mestre, sr. Redator, e em vez de conquistarem as crianças com bons tratos, fazem-nas mais revoltadas ainda com espancamentos seguidos e castigos físicos verdadeiramente desumanos. Eu tenho ido lá levar às crianças o consolo da religião e as encontro pouco dispostas a aceitá-lo devido naturalmente ao ódio que estão acumulando naqueles jovens corações tão dignos de piedade. O que tenho visto, sr. Redator, daria um volume” (Declaração do padre, p. 20).

“Quanto à carta de uma mulherzinha do povo, não me preocupei com ela, não merecia a minha resposta. Sem dúvida é uma das muitas que aqui vêm e querem impedir que o Reformatório cumpra a sua santa missão de educar os seus filhos. Elas os criam na rua, na pândega, e como eles aqui são submetidos a uma vida exemplar, elas são as primeiras a reclamar, quando deviam beijar as mãos daqueles que estão fazendo dos seus filhos homens de bem. Primeiro vêm pedir lugar para os filhos. Depois sentem falta deles, do produto dos furtos que eles levam para casa, e então saem a reclamar contra o Reformatório. Mas, como já disse, sr. Diretor, esta carta não me preocupou. Não é uma mulherzinha do povo quem há de compreender a obra que estou realizando à frente deste estabelecimento” (Declaração do dono do reformatório, p. 21).

Para completar o discurso vigente do governo sobre as instituições, o que dizem as autoridades responsáveis por este caso, como os juízes de menores? Temos a resposta antes mesmo destas cartas, na página 17.

“Ainda nestes últimos meses que decorreram mandei para o Reformatório de Menores vários menores delinquentes ou abandonados. Não tenho culpa, porém, de que fujam, que não se impressionem com o exemplo de trabalho que encontram naquele estabelecimento de educação e que, por meio da fuga, abandonem um ambiente onde se respiram paz e trabalho e onde são tratados com o maior carinho. Fogem e se tornam ainda mais perversos, como se o exemplo que houvessem recebido fosse mau e daninho. Por quê? Isso é um problema que aos psicólogos cabe resolver e não a mim, simples curioso da filosofia”.

Como esses trechos já disseram boa parte do que encontraremos pelo livro, não me estenderei tanto mais, e vou direto ao ponto. Em Capitães da Areia, Jorge Amado nos apresenta a vida de meninos de rua da cidade de Salvador, Bahia, que se auto-intitulam assim e que sobrevivem de furtos e trambiques, por serem a maioria órfãos, menores abandonados ou que fugiram de suas casas devido à abusos ou coisas do tipo. Ao contrário do senso comum, que, infelizmente, os reduz à condição de menores infratores e/ou, como vimos na declaração do padre José Pedro — que terá papel essencial na narrativa e na vida destes meninos, contrariando até seus superiores na hierarquia eclesiástica, sendo acusado de ser comunista —, à “feras sem alma”, que apenas roubam (ou se atrevem a fazer até coisas piores) por pura maldade e vagabundagem (até porque todos temos as mesmas oportunidades, cof cof), o autor nos apresenta um outro ponto de vista, e a mais importante: a dos meninos, e dos que convivem mais próximos a eles, como o padre e Dona Aninha, a mãe de santo local. Por esse viés, vemos, a cada personagem (que tem características e personalidade, além de vivência e experiência de vida, que o diferencia do outro), como é a vida quase sempre cruel e difícil destes meninos, que não conhecem o amor e o carinho de pai e mãe, que não tem (ou nunca tiveram) condições dignas de sobrevivência, como moradia, e que convivem com a violência diariamente, e não só da parte deles mesmos, como muitos podem pensar e que Eduardo de Assis Duarte, citado por Milton Hatoum no prefácio, resume de forma excelente:

‘”A violência é meio de ação dos bandidos-mocinhos, mas é também fim nas típicas atitudes de vingança do aparelho repressivo: sede, fome, espancamento, clausura… Em todo o texto, é enfatizado o sentido melodramático de pureza infantil “abandonada e perseguida” no labirinto da cidade degradante e degradada”‘ (p. 275).

Mas não só de dor e violência o livro se compõe. Em um dos capítulos mais emocionantes da Literatura, As Luzes do Carrossel, vemos beleza, inocência e a infância que foi roubada de cada um deles aflorando novamente, em um capítulo muito bonito e ao mesmo tempo muito triste. Vemos como no fundo e, apesar de todo seu histórico e de sua vida adultizada de maneira bastante precoce (os meninos, que não passam dos dezesseis anos, já dormem com mulheres, falam como adultos utilizando-se de palavrões e bebem cerveja, por exemplo), no fundo não passam de crianças, que ficam hipnotizadas e maravilhadas com as luzes multicoloridas do carrossel, a alegria que contagia todos ao redor e a música, que embala todos no mesmo sentimento, de pertencimento. Assim como lemos todas as aventuras vividas por cada um, a liberdade que tanto prezam representadas pelas ruas da cidade, que conhecem tão bem, e o cais, e o sentimento e o amor de uma mãe, uma irmã e uma noiva que uma personagem que só aparecerá na segunda metade do livro, Dora, representará para cada um destes meninos.

Em Capitães da Areia, durante toda a leitura ficamos entregues a um verdadeiro misto de emoções, que podem mudar a cada parágrafo, como o riso, o encantamento, a admiração, a raiva, o ódio, a tristeza, e, bem possível, as lágrimas ao fim. Foi uma história que em alguns momentos quis deixar o livro de lado e não continuar lendo, pelo menos no mesmo dia, e não só pelo o que acontecia a eles, mas também pelo que faziam. Jorge Amado nos provoca de todas as formas, e nos faz pensar, problematizar e nos confundir com as certezas que podemos ter. Um livro que, apesar de curto e de linguagem muito fácil, não é nada leve e delicioso de ler (no sentido dos fatos ocorridos, porque a escrita é um deleite). Um livro que com certeza mexeu/mexe/mexerá com a cabeça de qualquer pessoa que ler, e que traz as convicções que podemos ter ao ralo. Um livro que com certeza o fato de ser obrigatório não é demérito algum, e creio que, como O Sol é Para Todos, também deva ser, que seja estimulado e lido por todos, em todas as idades. Se você tem algum tipo de preconceito pelo autor como eu já tive e muitos também tiveram, pare já com isso e vá ler Capitães da Areia. Um livro para ser lido e relido. Um livro favorito e cinco estrelas.

Ps.: Só queria dizer que o final foi ao mesmo tempo totalmente inesperado e esperado para mim, salvou qualquer coisa que pode ter incomodado durante a leitura. Um final que não poderia esperar diferente, e que reforça o que espero já de Jorge Amado e sua visão política. Um final incrível.

Cristiane Gomes.