Orange is the New Black – Piper Kerman

A leitura deste livro não poderia ter sido em melhor momento: no final do mês passado, através da publicação de um livro chamado Presos que Menstruam, pela Editora Record, e através de diversas matérias em várias mídias, inclusive entrevistas com a autora do livro, a jornalista Nana Queiroz, pudemos saber mais sobre a realidade um tanto invisível para nós de fora, a realidade das mulheres brasileiras presas. Nestas matérias, presenciamos declarações, dados e constatações chocantes e terríveis, como detentas usando miolo de pão no lugar de absorventes íntimos, ou coisas piores, como veremos mais a frente. Como muitos já sabem, Orange is the new Black, da Editora Intrínseca, que também conta com uma aclamada série criada pelo Netflix, conta a história de Piper Kerman (Piper Chapman na série), uma loira de classe média que, após ter carregado uma mala cheia de dinheiro de tráfico de drogas há dez anos, para uma ex-namorada, é indiciada e condenada a treze meses em uma prisão federal de segurança mínima, tendo que conviver com diversos tipos de mulheres, de raças, condições sociais e econômicas diferentes de sua realidade.

Em um primeiro momento, pode parecer para alguns um plot simples ou bobo, que não chama a atenção de qualquer um, já esperando uma mulher mimada ou algo assim. Mas não se enganem. O que chama a atenção no livro (e que na série é um tanto diferente) é a dura realidade com que essas mulheres vivem, e que essa realidade atinge de formas muito diferentes cada tipo de mulher: como Piper nos conta em seu livro, que é de seu caso real, muitas mulheres nunca trabalharam em empregos formais na vida, apenas informais, e ficam se perguntando o que será de seu sustento no dia que saírem, já que não há recomendações ou incentivos para que ex-detentas sejam contratadas, muito pelo contrário; mulheres que tiveram seus filhos tomados de si e suas famílias fragmentadas, e que terão que reconciliá-las com a saída; mulheres com penas muito longas e que não enxergam mais vida fora, entre outras. Piper, ao longo de seu relato, percebe o quão privilegiada é, com um noivo a sua espera do lado de fora durante toda a pena, e que a visita semanalmente, assim como sua forte família, que continua a apoiá-la; um emprego seguro e garantido quando sair, oferecido por um amigo; e, claro, uma condição financeira e emocional seguras para a receberem. Realidade que não é de quase nenhuma detenta.

Mas também deve-se levar em conta que a realidade das prisões americanas, apesar de o país conter a maior população carcerária do mundo, cerca de 25%, não é a pior do mundo, como temos o nosso próprio exemplo, e a jornalista Nana Queiroz tenta mostrar em seu livro, e que achei interessante trazer pra cá e essa discussão, mesmo que a resenha não seja desse livro e mesmo que eu tenha lido, o que ainda não tive a oportunidade.

A luta diária dessas mulheres é por higiene e dignidade. Piper Chapman, protagonista da série Orange is the New Black, cuja terceira temporada acabou de estrear no Netflix, provavelmente não sobreviveria numa prisão brasileira. Se a loira ficou abalada ao encarar as prisões limpinhas dos Estados Unidos, como reagiria às masmorras medievais malcheirosas e emboloradas brasileiras, nas quais bebês nascem em banheiros e a comida vem com cabelo e fezes de rato? As prisões femininas do Brasil são escuras, encardidas, superlotadas. Camas estendidas em fileiras, como as de Chapman, são um sonho. Em muitas delas, as mulheres dormem no chão, revezando-se para poder esticar as pernas. Os vasos sanitários, além de não terem portas, têm descargas falhas e canos estourados que deixam vazar os cheiros da digestão humana. Itens como xampu, condicionador, sabonete e papel são moeda de troca das mais valiosas e servem de salário para as detentas mais pobres, que trabalham para outras presas como faxineiras ou cabeleireiras”.

No livro de Kerman, temos momentos magníficos de eloquência por parte da autora, em que ela chega no cerne da questão, mesmo que não aprofunde os temas, mas críticas sobre o sistema prisional americano e a forma com que detentos, ex-detentos e pessoas marginalizadas são tratadas pela sociedade.

A prisão é, literalmente, um gueto no sentido mais clássico da palavra, um lugar onde o governo dos Estados Unidos, hoje, não coloca só os perigosos, mas também os inconvenientes — doentes mentais, viciados, pobres, pessoas pouco instruídas e sem profissão. Enquanto isso, o gueto do mundo exterior também é uma prisão, mas uma prisão muito mais difícil de escapar do que esta. Na verdade, existe, basicamente, uma porta giratória entre nossos guetos urbanos e rurais e o gueto formal de nosso sistema prisional.

Apesar de quotes e momentos espetaculares como esse, não é também um livro extraordinário no sentido de se tornar um dos livros da vida, mas é um livro muito bom pensando desta forma, para trazer-nos esta realidade que não nos é tão palpável, essa realidade “invisível”, como Nana também diz ser a brasileira. O final não é tão empolgante como o restante pode até ser, mas não deixou de concluir uma ideia que a autora quis passar durante todo o livro, embora não seja a mais interessante e instigadora. Eu me surpreendi com a leitura, estava com baixas expectativas, já que a maioria das pessoas que o lêem preferem muito mais a série, não incentivam tanto a leitura do livro. Mas eu acho tão necessária quanto assistir a série, que, depois de muito tempo relutando em começar, assisti o piloto neste sábado e, mesmo com a pretensão de ver apenas o piloto, vi quatro episódios seguidos, mesmo antes de terminar o livro, que o fiz hoje.

Sobre a série, embora tendo só visto estes quatro episódios até agora, gostei bastante, e estou bastante empolgada e ansiosa para continuar, até com saudades. Diversas situações, sentimentos, personagens e relacionamentos são modificados, mas, ao que me parece e que ouvi dizer, abre novos caminhos e expande a trama de Piper para chegar a outros (ou mesmo maiores) resultados. Vamos ver o que ela me reserva. Como Nana diz em uma das matérias, que disponibilizarei ao final desta resenha, ela traz uma visibilidade que nos foi e ainda nos é negada até hoje: a da mulher, e sendo independente da do homem. Uma visibilidade não estereotipada, mas real. A de diversas mulheres. Piper Kerman nos trouxe um relato, mas Piper Chapman, pelo que me parece, nos traz vivências. Veremos se a expectativa se concretizará de forma satisfatória.

Links das matérias:

http://revistagalileu.globo.com/Revista/noticia/2015/07/descubra-como-e-vida-das-mulheres-nas-penitenciarias-brasileiras.html

http://oglobo.globo.com/sociedade/livro-revela-horror-das-prisoes-femininas-no-brasil-detentas-usam-miolo-de-pao-como-absorvente-1-16938557

Cristiane Gomes.

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Estreia do blog e O Sol é Para Todos (To Kill a Mockingbird) – Harper Lee

Então, gente… quem me acompanha no instagram viu, depois da jornada #LendoHarperLee, criada pela Mell Ferraz do Blog Literature-se, no domingo finalmente terminei de ler este livro incrível. Depois de diversas passagens sensacionais postadas por lá, não teria como deixar de fazer uma resenha sobre ele. Já aviso de antemão que não conseguirei falar como quero sem comentar sobre os acontecimentos ocorridos durante a história e, para falar a verdade, nem acho que isso seja o principal mas, sim, como muitos falam, o modo como é narrado e seus detalhes, a forma inocente, pura e sensível que a narradora nos apresenta o desenrolar de tudo. Apesar de ser uma frase quase que clichê, acho que nesse livro se aplica. Não sei se O Sol é Para Todos é um livro de spoilers. Mas, em respeito aos que não leram – e que deviam imediatamente! –, vou sinalizá-los, caso ocorram.

Em primeiro lugar, este livro conta a história não só de sua narradora, Jean Louise Finch, mais conhecida como Scout, mas de, em certa forma, os moradores do condado de Maycomb, no sul dos Estados Unidos, Alabama, e suas relações em diversos níveis. Em um primeiro momento, na primeira parte do livro, parece-nos que a história é sobre Scout e sua vida em Maycomb, um lugar pacato que, como é descrito por Scout,

Quando chovia, as ruas viravam um lamaçal vermelho; o mato crescia nas calçadas e o tribunal parecia afundar no meio da praça. De alguma maneira, fazia mais calor; (…) Às nove da manhã, o colarinho duro dos homens já estava mole. As mulheres tomavam um banho antes do meio-dia e outro depois da sesta das três da tarde; (…) No calor, as pessoas se movimentavam devagar. (…) Os dias tinham vinte e quatro horas, mas davam a impressão de durar mais. Ninguém tinha pressa, pois não havia aonde ir, nada que comprar nem dinheiro para tal, nem nada para ver nos arredores de Maycomb” (p. 13-14).

Para “agitar” a tranquilidade da vida em Maycomb, em uma das férias de verão um novo garoto aparece, Dill, que nesses períodos fica hospedado na casa de uma das vizinhas da família Finch, tradicional em Maycomb, e que logo faz amizade com Scout e Jem, irmão quatro anos mais velho de Scout. Dill é inspirado em um personagem real, Truman Capote, reconhecido escritor norte-americano por trazer o jornalismo à literatura, e que conviveu com a autora, Harper Lee, desde a infância, caracterizando um aspecto de autobiografia e veracidade à obra. Além disso, o pai de Harper Lee era advogado, assim como Atticus Finch, pai de Scout, e que se tornará de grande importância não só como grande figura paterna, mas também para os acontecimentos da segunda parte da trama. Apesar de ter adorado a pequena Scout, Atticus foi, com certeza, meu personagem favorito na história, e assim como um dos mais amados pais da literatura, assim como personagem em si. Maycomb, que é uma cidade fictícia, também parece corresponder à Monroeville, cidade em que Harper Lee nasceu, também no Alabama.

O fato de a história se passar no Alabama é crucial para a compreensão da trama. O sul dos Estados Unidos é historicamente marcado pela intensa questão racial e seu grande racismo, tema que será bastante e espetacularmente abordado na segunda parte, e que, para mim, é o principal tema abordado pelo livro, através da empatia que qualquer ser humano deva ter em relação ao outro, e que sugere a expressão escolhida pela tradução para o nome do livro. Atticus Finch, como defensor público, é designado para representar Tom Robinson, um negro que é acusado por um pai e filha brancos, de ter violentado e estuprado a filha em questão, Mayella Ewel. Ao longo da narrativa, e isso não é um spoiler, mas o fator primordial, percebemos que Tom não era o culpado, mas sim o próprio pai da menina, que aproveita-se da condição de Tom, em uma sociedade extremamente racista, e o acusa. Eu iria agora expôr os motivos para tanto, mas acho que esses sim são aspectos que seriam mais interessantes que vocês descobrissem quando lessem, e que são imprescindíveis para compreender a mensagem que a autora queria passar, até para entender a personagem de Mayella como também uma vítima daquela sociedade, à sua maneira, assim como Tom Robinson e outro personagem, que falarei mais adiante.

Como esperado, dentro daquela sociedade de racismo enraizado, Atticus e seus filhos começam a ser perseguidos pela posição do pai de não só representar Tom porque foi designado para tanto, mas por acreditar em sua inocência, e tanto apoiá-lo como sua família. A cada vez que são vistos na rua ou em qualquer outro lugar, acusações de Atticus ser um “admirador de pretos”, palavras usadas pelos personagens, são dirigidas a ele e aos filhos, o que causa estranhamento e confusão para estes, principalmente para Scout, por não entender o que isto significa e a carga que isto tem para as outras pessoas, e por parecer ser uma ofensa tão grande. O choque inverso também acontece, quando Calpúrnia, a governanta negra da família, – que caracteriza-se quase como uma mãe para aquelas crianças, quando a verdadeira morre, e que ensina Scout a ler desde muito cedo –, leva as crianças para sua igreja em um domingo, e a comunidade negra questiona o que aquelas crianças brancas faziam ali, já que tinham sua própria igreja, em uma cena escrita de forma genial.

Dado todo esse contexto conflitante na vida dos personagens, o julgamento finalmente acontece, o ponto alto do romance. Com ele, percebemos que esta cidade, que nos parece de início pacata e tranquila, como qualquer outra, é na verdade a realidade existente em todo o país, dado sua história. No julgamento que Scout e Jem veem a verdadeira realidade e a faceta de Maycomb, e como não é nada bonita e gloriosa, mas horrenda. O que nos salva é este lado forte da empatia, que aparece não só por causa de Tom e Mayella, mas pela história dos vizinhos e notadamente por Boo (Arthur) Radley, que primeiro nos aparece com uma história envolta em mistério e horror, com a grande imaginação das três crianças em torno disso, e depois nos surpreende, dado seu papel no final da história, que é belíssimo. O livro também retrata muito bem a questão do gênero, que não dará para eu comentar por motivos de tamanho desta resenha, mas que o autor John Green comenta um pouco de forma genial em um vídeo falando sobre o livro, que deixarei no final desta página. A explicação para o nome no original é muito interessante também, mas que vocês só descobrirão quando lerem. Um livro que, com certeza, entrou para os favoritos da vida, e mais ainda numa listagem desse ano. Cinco estrelas e favoritado, claramente. Um livro para ser relido em diversas épocas.

Falando rapidamente sobre o filme, a adaptação de 1962, foi de grande satisfação para mim, gostei muito do filme. Apesar de grandes cenas terem sido cortadas, como a cena da igreja, a do incêndio da casa da senhorita Maudie e do desfecho do caso em frente a delegacia ter sido diferente, mudanças que com certeza modificaram o tom da história, não comprometeram definitivamente a grandeza e a qualidade do filme, dado as atuações magníficas de todos os atores, em especial a parte final do depoimento de Mayella no julgamento e de Gregory Peck como Atticus, que agora não consigo ver como outro ator poderia fazê-lo. Os três Oscars que a película ganhou foram merecidíssimos, assim como o Pullitzer do livro em 1961 em ficção e seu enorme reconhecimento, assim como a obrigatoriedade da leitura nas escolas norte-americanas, o que eu acharia também muito interessante e válido por aqui. Um livro para todos lerem imediatamente.

Vídeo do John Green sobre o livro: https://www.youtube.com/watch?v=7FlCWbi_gpk

Cristiane Gomes.