Leituras de outubro/2015

Hoje vamos tratar aqui no blog das leituras que fiz em outubro. Como ainda estamos no dia 31, pode ser que eu avance ou mesmo termine alguma leitura até o final do dia, mas aí qualquer coisa aviso vocês 😉
Mantendo a mesma média dos outros meses, infelizmente, só terminei três livros em outubro, mas comecei inúmeros, que farei de tudo para terminar neste próximo mês de novembro (oremos!); os mil clubes de leituras, projetos/desafios (que não consigo deixar de participar), as matérias na faculdade e a hiperatividade não ajudam, mas aos poucos vamos administrando isso.

Também teve a questão de que há dois meses não atualizo o blog. Peço perdão pelo sumiço por aqui, mas houve diversos motivos, até de não estar motivada a escrever mesmo. Mas lembrando que no Instagram as atualizações são quase que diárias, então sempre mantenho a comunicação com todos vocês 🙂 Mas vamos, enfim, aos livros!

Comecei outubro lendo meu primeiro livro de H. P. Lovecraft, um autor norte-americano que ficou mais conhecido por ter criado o gênero do terror cósmico, e que geralmente escreve dentro deste gênero. Como tinha dito lá no instagram, me propus a participar também do #MêsdoHorror, um desafio criado por Tatiana Feltrin para ler livros de terror, horror, mistério e morte durante o mês de outubro, o mês do Halloween. Havia separado alguns títulos para leitura, e este de Lovecraft, O Horror em Red Hook, fora um deles.

Já havia lido um conto do autor chamado “Dagon”, que me deixou no mínimo curiosa, mas nada me prepararia pro que encontrei nesta obra. De início só sentia estranheza pelos contos, e a palavra que não parava de pairar em minha mente era “bizarro”, como brinquei no post do instagram. A compreensão foi prejudicada também, mas não por culpa do autor, me parece, mas pela estranheza com o texto novo mesmo. Até o segundo conto (de três, que compõem o livro) essa incompreensão atrelada com a estranheza me acompanhava, em certo ponto, mas no segundo a situação melhorou bastante: já compreendi melhor e gostei mais do texto. Até que, enfim, cheguei ao terceiro e último conto, em que tudo se concretizou e se finalizou de uma forma espetacular. Um conto que nunca mais esquecerei o nome devido a esse impacto: A Tumba. É claro que a estranheza e a bizarrice são sentimentos que parecem permear os textos de Lovecraft, mas para mim pareceu algo proposital e intencional mesmo. O que não tira seu mérito, muito pelo contrário, o torna fascinante já à primeira experiência. Saí da leitura recomendando bastante o livro, até porque essa experiência foi super válida, especialmente num mês especial como este. Mas tinha a noção de que uma releitura era necessária, para melhor absorção e prazer na leitura dos contos. E só posso dizer que: leiam este último conto imediatamente, mesmo que não tenham esse livro em mãos. É absolutamente fantástico, dos melhores contos que já li.

A segunda leitura do mês foi minha primeira tragédia ou peça em geral grega (e clássica), e Sófocles, o autor de Édipo Rei, foi meu segundo dramaturgo, desde Shakespeare. Pensava encontrar um texto muito obscuro, intrincado, de difícil compreensão e absorção/inserção dentro da história. Mas não foi o que encontrei nesta peça. É claro que recorri ao dicionário pelo celular a todo momento, até porque sou muito leiga em mitologia, um assunto que me interesso, mas que ainda não parei para ler a fundo.  A cada nome que eu não conhecia, procurei pela internet e tive respaldo, o que me ajudou bastante na leitura. Mas talvez você consiga ler sem essas consultas, creio bastante que sim, foi apenas uma escolha minha, que não gosto de deixar coisas tão simples passarem. Além das palavras que não conhecia, claro, o que nos fortalece o vocabulário. Quanto à história em si, acredito que todos a conhecem, não é? A que deu origem ao complexo de Édipo, estudado pela psicanálise; em Édipo, o mesmo descobre-se esposo de sua própria mãe, além de ter assassinado seu próprio pai. Gostei muito do enredo, foi bastante bem executado para mim, e uma ótima tragédia. Ao final fiquei um pouco confusa com a mensagem, o que me permitiu várias reflexões sobre, e o desfecho em si foi sensacional para mim (não sei se contar o final de Édipo chega a ser um spoiler, mas enfim, hahaha).

E, por último, li O Vilarejo, lançamento deste ano de Raphael Montes, escritor carioca. Como Vilto Reis disse em sua resenha, também lembrei de Lovecraft ao ler os contos, inspiração que também é corroborada pelo autor, assim como de Edgar Allan Poe, que ainda li bem pouco. Em O Vilarejo, encontramos o próprio autor como personagem da história, se auto-intitulando o tradutor destes sete contos encontrados neste livro, que estavam escritos em um idioma muito antigo e já extinto, o cimério. Além disso, no prefácio tomamos conhecimento da descoberta, por um antigo padre e demonologista, de que existem sete reis do inferno, que representam os sete pecados capitais, sendo eles: Asmodeus, com a luxúria; Belzebu, gula; Mammon, ganância; Belphegor, preguiça; Satan, ira; Leviathan, inveja; e Lúcifer, soberba. Com estes sete demônios, temos os setes pecados capitais representados nos sete contos, cada um focado em um pecado.

Sobre o livro gostei bastante. Também tive bastante estranheza nos primeiros contos, que beiram o horror puro e até o gore. O que pra mim foi uma surpresa, nunca havia lido algo assim, acho, mas que gostei. Com certeza um trabalho bem melhor que seu anterior, Dias Perfeitos: algo mais conciso e direto, mas maduro. O final foi bem bacana também, desfecho bem pensado. Uma ótima pedida para quem gosta do gênero, ou que quer começá-lo a lê-lo. Ou mesmo um livro bacana para passar o tempo mesmo. Noventa e seis páginas que passam bem rápido.

Para maiores detalhes dos três livros, só conferirem as postagens referentes a eles no instagram. 😉

Cristiane Gomes.

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Orange is the New Black – Piper Kerman

A leitura deste livro não poderia ter sido em melhor momento: no final do mês passado, através da publicação de um livro chamado Presos que Menstruam, pela Editora Record, e através de diversas matérias em várias mídias, inclusive entrevistas com a autora do livro, a jornalista Nana Queiroz, pudemos saber mais sobre a realidade um tanto invisível para nós de fora, a realidade das mulheres brasileiras presas. Nestas matérias, presenciamos declarações, dados e constatações chocantes e terríveis, como detentas usando miolo de pão no lugar de absorventes íntimos, ou coisas piores, como veremos mais a frente. Como muitos já sabem, Orange is the new Black, da Editora Intrínseca, que também conta com uma aclamada série criada pelo Netflix, conta a história de Piper Kerman (Piper Chapman na série), uma loira de classe média que, após ter carregado uma mala cheia de dinheiro de tráfico de drogas há dez anos, para uma ex-namorada, é indiciada e condenada a treze meses em uma prisão federal de segurança mínima, tendo que conviver com diversos tipos de mulheres, de raças, condições sociais e econômicas diferentes de sua realidade.

Em um primeiro momento, pode parecer para alguns um plot simples ou bobo, que não chama a atenção de qualquer um, já esperando uma mulher mimada ou algo assim. Mas não se enganem. O que chama a atenção no livro (e que na série é um tanto diferente) é a dura realidade com que essas mulheres vivem, e que essa realidade atinge de formas muito diferentes cada tipo de mulher: como Piper nos conta em seu livro, que é de seu caso real, muitas mulheres nunca trabalharam em empregos formais na vida, apenas informais, e ficam se perguntando o que será de seu sustento no dia que saírem, já que não há recomendações ou incentivos para que ex-detentas sejam contratadas, muito pelo contrário; mulheres que tiveram seus filhos tomados de si e suas famílias fragmentadas, e que terão que reconciliá-las com a saída; mulheres com penas muito longas e que não enxergam mais vida fora, entre outras. Piper, ao longo de seu relato, percebe o quão privilegiada é, com um noivo a sua espera do lado de fora durante toda a pena, e que a visita semanalmente, assim como sua forte família, que continua a apoiá-la; um emprego seguro e garantido quando sair, oferecido por um amigo; e, claro, uma condição financeira e emocional seguras para a receberem. Realidade que não é de quase nenhuma detenta.

Mas também deve-se levar em conta que a realidade das prisões americanas, apesar de o país conter a maior população carcerária do mundo, cerca de 25%, não é a pior do mundo, como temos o nosso próprio exemplo, e a jornalista Nana Queiroz tenta mostrar em seu livro, e que achei interessante trazer pra cá e essa discussão, mesmo que a resenha não seja desse livro e mesmo que eu tenha lido, o que ainda não tive a oportunidade.

A luta diária dessas mulheres é por higiene e dignidade. Piper Chapman, protagonista da série Orange is the New Black, cuja terceira temporada acabou de estrear no Netflix, provavelmente não sobreviveria numa prisão brasileira. Se a loira ficou abalada ao encarar as prisões limpinhas dos Estados Unidos, como reagiria às masmorras medievais malcheirosas e emboloradas brasileiras, nas quais bebês nascem em banheiros e a comida vem com cabelo e fezes de rato? As prisões femininas do Brasil são escuras, encardidas, superlotadas. Camas estendidas em fileiras, como as de Chapman, são um sonho. Em muitas delas, as mulheres dormem no chão, revezando-se para poder esticar as pernas. Os vasos sanitários, além de não terem portas, têm descargas falhas e canos estourados que deixam vazar os cheiros da digestão humana. Itens como xampu, condicionador, sabonete e papel são moeda de troca das mais valiosas e servem de salário para as detentas mais pobres, que trabalham para outras presas como faxineiras ou cabeleireiras”.

No livro de Kerman, temos momentos magníficos de eloquência por parte da autora, em que ela chega no cerne da questão, mesmo que não aprofunde os temas, mas críticas sobre o sistema prisional americano e a forma com que detentos, ex-detentos e pessoas marginalizadas são tratadas pela sociedade.

A prisão é, literalmente, um gueto no sentido mais clássico da palavra, um lugar onde o governo dos Estados Unidos, hoje, não coloca só os perigosos, mas também os inconvenientes — doentes mentais, viciados, pobres, pessoas pouco instruídas e sem profissão. Enquanto isso, o gueto do mundo exterior também é uma prisão, mas uma prisão muito mais difícil de escapar do que esta. Na verdade, existe, basicamente, uma porta giratória entre nossos guetos urbanos e rurais e o gueto formal de nosso sistema prisional.

Apesar de quotes e momentos espetaculares como esse, não é também um livro extraordinário no sentido de se tornar um dos livros da vida, mas é um livro muito bom pensando desta forma, para trazer-nos esta realidade que não nos é tão palpável, essa realidade “invisível”, como Nana também diz ser a brasileira. O final não é tão empolgante como o restante pode até ser, mas não deixou de concluir uma ideia que a autora quis passar durante todo o livro, embora não seja a mais interessante e instigadora. Eu me surpreendi com a leitura, estava com baixas expectativas, já que a maioria das pessoas que o lêem preferem muito mais a série, não incentivam tanto a leitura do livro. Mas eu acho tão necessária quanto assistir a série, que, depois de muito tempo relutando em começar, assisti o piloto neste sábado e, mesmo com a pretensão de ver apenas o piloto, vi quatro episódios seguidos, mesmo antes de terminar o livro, que o fiz hoje.

Sobre a série, embora tendo só visto estes quatro episódios até agora, gostei bastante, e estou bastante empolgada e ansiosa para continuar, até com saudades. Diversas situações, sentimentos, personagens e relacionamentos são modificados, mas, ao que me parece e que ouvi dizer, abre novos caminhos e expande a trama de Piper para chegar a outros (ou mesmo maiores) resultados. Vamos ver o que ela me reserva. Como Nana diz em uma das matérias, que disponibilizarei ao final desta resenha, ela traz uma visibilidade que nos foi e ainda nos é negada até hoje: a da mulher, e sendo independente da do homem. Uma visibilidade não estereotipada, mas real. A de diversas mulheres. Piper Kerman nos trouxe um relato, mas Piper Chapman, pelo que me parece, nos traz vivências. Veremos se a expectativa se concretizará de forma satisfatória.

Links das matérias:

http://revistagalileu.globo.com/Revista/noticia/2015/07/descubra-como-e-vida-das-mulheres-nas-penitenciarias-brasileiras.html

http://oglobo.globo.com/sociedade/livro-revela-horror-das-prisoes-femininas-no-brasil-detentas-usam-miolo-de-pao-como-absorvente-1-16938557

Cristiane Gomes.